9 de out. de 2007
Queria que tudo fosse mais fluido. Ou seja, que os trabalhos se iniciassem sem qualquer apresentação, afinal de contas, uma droga duma pedra não precisa se apresentar, certo?
Mas meu camarada Jesse me poupou esse trabalho. Apresentou-nos o que fosse, mesmo que a força do verbo "fosse" restaurasse qualquer tipo de desejo de possibilidade. De qualquer maneira, fica o que ele disse pelo que se pode vir a não dizer.
No que me toca, tenho a vontade quase intestinal de discutir sobre temas que não importem. Literatura por exemplo. Hoje em dia, tudo é muito importante, as modas, a conjuntura macro-econômica, as declarações da Luciana Gimenez. O que nos leva ao tema de hoje.
Não sei como estão as coisas na literatura contemporânea, nem faço questão de saber. Desde que descobri que Walt Whitman fazia a ode à alegria do homem comum, protegido pelos campos e maquinários, gritando, do lado de cá da América, pras rebordosas do Tejo, onde Álvaro de Campos respondia, pedindo mais uma garrafa de rum, não entendo como algo possa ser mais ameaçadoramente contemporâneo do que a boa literatura.
De qualquer maneira, a gente vive numa era de arquivistas. E alguns deles acham por bem também arquivar frases de efeito e achismos. Adoro esse tipo de gente. Me faz querer dar umas rodadinhas pelo ar, soprando uma língua-de-sogra e agitando umas bandeirinhas. Quando leio coisas como "o movimento da areia que escoa pelos dedos", e ouço o mesmo cara dizendo que ainda vamos muito ouvir falar do Seu Sanclé, fico com aquela vaga impressão de que até os profetas e arautos de nossos tempos são uns folhetins esquisitos.
O trabalho do crítico ou resenhista é apresentar o texto focado. Demonstrar seus pontos fortes, os polêmicos. Discutir com esse texto, mas não competir com ele. Deixe pros artistas brigarem entre si.
Não vou falar sobre seu Sanclé porque não falo de quem não conheço nem um pingo, quanto mais o ponto. E, além disso. Sou muito contemporâneo.
E, como diria o meu amigo Nino: "Vou-me embora pra Passárgada, lá tem prostitutas bonitas pra gente namorar."
E tenho dito.
Gritar para não acabar cego
Antes de começarmos nosso texto, devemos uma explicação ao futuro, ou quem sabe, único leitor: este é um blog criado com a intenção de expormos pontos de vista considerados anti-éticos pela maioria das pessoas, mas que revelam a preocupação única com aquilo que é realmente ético na área de Humanas. Sejamos humanitas, egos fora, trabalho árduo dentro... Se não há trabalho árduo, ao menos teremos a profunda sinceridade de negarmos esse trabalho.
Numa única frase – este é um blog dedicado à discussão de temas relevantes à passagem dos tempos e suas relações que podem ser instantâneas ou mesmo situacionais, mas que trazem sempre um problema
em mãos... Trabalharemos, assim, com as diversas manifestações da cultura e com suas particularidades, quando necessário.
Como o assunto desse post não é a apresentação do blog em si, vamos ao que interessa.
Ao passear pelos jornais de âmbito nacional, não pude deixar de notar um fato: No caderno Prosa & verso, do jornal O Globo, de 15 de setembro de 2007, havia uma longa resenha que tratava de uma publicação online. Chama-se Dias estranhos e é uma coletânea de contos de um autor mineiro, que mora na mesma cidade em que estou passando os últimos dias, de nome Saint-Clair Stockler.
Jabas à parte, qualquer um pode achar os referidos contos na rede. Confesso que não os li e essa decisão foi tomada tão somente pela leitura da resenha. Explicarei o porquê mais adiante... Não é nada contra o autor, é certo, mas como ler uma coletânea de contos que não exprimem nada, não experimentam nada daquilo que é considerado literário? Ou seja, por que eu, ao ler uma resenha, concluo que o texto ao qual se refere é desinteressante?
Na resenha, a única coisa que realmente li, temos um apanhado crítico que remonta as falas de Luciana Gimenez sobre qualque artista que apresenta uma história de sucesso. Melhor: pseudo-sucesso. É impressionante como palavras do tipo "como o movimento da areia que escoa entre os dedos" fazem imagens bonitas em nossas mentes, mas que nada significam de fato. A resenha mostra o quão é desinteressante para o leitor digitar o endereço do blog para ler os contos, já que a temática só é abordada nos terceiro e sexto parágrafos do texto do "crítico" (aff).
Não vou alongar-me nesse aspecto. O que eu gostaria de falar, brevemente, é sobre o que uma resenha literária, deve ser: ela deve, como já disse, tornar um determinado texto que contém como principal característica a literariedade em algo que minimamente seja curioso ao leitor. Esse texto de Elias Furjado é tudo menos isso – um apanhado de achismos e frases comuns...
Até a próxima sessão...