Rio de Janeiro, 15 de agosto de 2008.
Caros articulistas,
Espero que os e-mails estejam corretos. Sem mais delongas, vamos direto ao texto...
Enviar uma carta pública é sempre uma tarefa difícil, pois faz com que seu autor tenha de ser o mais claro possível para que haja o entendimento por parte da maioria dos leitores. Esta carta está diretamente ligada ao "Debatman" publicado pelo Sr. Arnaldo Bloch em seu blog na Globo.com.
Antes de iniciarmos considerações acerca das análises feitas do filme Batman: The dark knight, começo com o sub-título utilizado pelo próprio Bloch: "polêmica completa". É, no
mínimo, engraçado ver a palavra polêmica como um signo para os tetos ora apresentados. Polêmica é o debate de posições contrárias que são defendidas com ardor, paixão, em que, na maioria dos casos, transborda em acusações de miopia intelectual por parte dos envolvidos. Por favor, Sr. Bloch, antes de o sr. utilizar a palavra polêmica para somente inflar o seu cérebro narcísico novamente, leia as polêmicas que permeiam nossa história cultural.
O texto do Sr. Jabor, o primeiro do “debate” (he!), trata de uma comparação entre o Coringa e Osama Bin Laden. Segundo a sua análise, o Coringa poderia ser, realmente, comparado até mesmo a sua mãe. Explico: a sua, penso eu, recente leitura, de Power Inferno e A transparência do mal, ambos de Jean Baudrillard, influenciou a sua visão acerca do personagem. É claro que o influente francês tem gabarito suficiente para influenciar nossas discussões. Afinal de contas, vários dos nossos intelectuais fast-food têm suas brilhantes idéias nos cérebros dos intelectuais franceses...
No primeiro parágrafo, o sr. mesmo confessa sua incapacidade para entender o filme. Daí, me pergunto: por que um leitor continuaria a ler o seu texto? Ah, já sei! É porque trata-se de um texto do Arnaldo Jabor, o brilhante cineasta de uma nota só e brilhante argumentador de esquerda (com o simples intuito de obtenção de prazer, comprometendo a crença moral de algumas adolescentes).
Já expliquei isso ao sr. em uma certa carta-berta sobre as suas considerações acerca de Sin City, mas, como sou pastor, não devo cansar-me por conta de seu dislate. Quando o sr. fizer afirmações que beiram uma análise, faça a análise!!!! Comparar “filmes-catástrofes” aos atentados de 11-09 é uma boa intuição, mas não provar o apontamento é sinal de uma imaturidade intelectual de tal porte que chega a causar pena aos seus leitores. Como a segunda característica de um pastor não é ter pena de seu rebanho, toma-lhe...
Sobre a atuação de Heath Ledger, parece que concordamos em algo. De fato, Ledger consegue captar algo que Jack Nicholson ignorou: o Coringa é o personagem que encarna a própria força da pulsão sem que haja o processo de culpabilidade tão próprio da ideologia ocidental. Porém, o sr. dá todos os méritos ao ator. Por quê? Por acaso, o sr. é partícipe da disparidade esquizofrênica com relação à cultura?
Uma pergunta para o sr.: Se, a partir da metade do seu texto, o sr. afirma que o Coringa é imune a interpretações, como pode querer que, na sua interpretação, o Coringa (criado nos anos de 1940) seja uma aproveitamento ficcional de Bin Laden? A sua ridícula interpretação é tão equivocada que não me parece oportuno debatê-la. Fica pra próxima...
Sobre o texto de Artur Xexéo:
O que dizer de um texto que possui o título “Não tenho nada a dizer”? É dessa forma que Xexéo inicia sua resposta às provocações do tão-brilhante-quanto-uma-camisa-lavada-por-Omo Arnaldo Jabor. Pelo menos, ele, de forma bem honesta, admite ser completamente ignorante quando o assunto é o universo, que teve seu ponto de partida com Bob Kane nos anos de 1940. Para aliviar seu próprio constrangimento, Xexéo retorna à já caduca distinção entre culturas para se afirmar enquanto intelectual. Aff!!!!
O sr. Xexéo, aliás, com muito boa vontade, tenta compreender a verborrágica (e vampírica)
reflexão do sr. Jabor, mas admite que há uma ligeira impossibilidade. Obviamente, Xexéo não leu os livros com os quais Jabor estabeleceu o seu pensamento, se é que o cineasta fracassado consegue algo de tamanho prumo.
Uma falha gritante do texto de Xaxéo é pensar que as histórias em quadrinhos sejam coisas de crianças... Não vou me alongar por esta vereda, pois os exemplos de seu equívoco são tantos que acredito piamente que, se os apontar, o sr. Xexéo vai necessitar de alguns anos de terapia para vencer o impacto. Xexéo, por favor, vá ao Google e digite graphic novel criação.
Pelo menos, existem 2 pontos positivos em seu texto: o sr. pesquisou em termo próprio dos quadrinhos (graphic novel) e ainda conseguiu estabelecer um paralelo entre o impacto do filme com relação às bilheterias de filmes brasileiros. Para quem não tinha nada a dizer, o sr. Artur Xexéo demonstrou possuir algo que não tem o autor do texto anterior: raciocínio (mínimo, é certo) independente.
Sobre o texto de Arnaldo Bloch:
Na seqüência, temos o comentário do sr. Bloch. Escrevendo como se fosse o próprio Wayne, Bloch coloca um ponto correto, mas sua cordialidade é tamanha que mais parece ter um caso com os dois e não quer, sob hipótese alguma, desagradá-los.
Desculpe-me, Bloch; mas Bruce Wayne não é um Teletubbie. O personagem defenderia a obra de maneira mais veemente, com sutil ironia e algum ceticismo. Sua versão de Wayne mais parece Adam West — como todo apreciador de HQ sabe, West só serviu para chacotas com relação ao personagem. Por favor, lembre-se disso; Batman é um defensor do que ele acha correto e defende que “os fins justificam os meios”. Você realmente acha que esse discurso de que cada um tem o direito de interpretar o que quiser é válido sem que haja uma argumentação coerente?
Sobre o 2º texto de Arnaldo Jabor:
Uma confissão: acredito que a principal pergunta da humanidade seja para quê? Nessa pergunta, encontramos, ao mesmo tempo, a justificativa (exigida como introdução da resposta) e a finalidade (a resposta em si) de qualquer fenômeno. Então, pergunto: para que o sr. acha que é um homem que reflete sobre questões importantes?
De fato, consigo imaginar a cena: o sr. sentado de frente ao seu laptop e falando: “Quem são vocês para falar qualquer coisa sobre o meu texto? Eu sou Arnaldo Jabor! Sou todo-poderoso em meus comentários! Ah, caralho, vocês vão ver só...” Daí, você olha para a direita e vê sua velha filmadora, lembra do seu passado e, com fúria escreve o primeiro texto.
Ao reler esse primeiro texto, você saliva diante da sua genialidade e percebe o óbvio: você não falou de Batman, mas de como é genial. Acaba por deletar o arquivo, ou guardá-lo para uma próxima, e começa de novo. Acho que foi assim que brotou seu enfadonho texto.
Por que Batman: The dark Knight não pode ser complexo? Por que um niilista tem de ser entendido? Por que um cético não pode encarnar o Bem? Na sua ânsia de não abordar a complexidade de um personagem da mitologia contemporânea, o sr. peca numa coisa que acredito que o sr. não tenha: profundidade de análise.
Os anos de 1970 não instituíram na ficção o prazer no detalhe sangrento. Na realidade, foi Homero, no século VII a. C. O que Hollywood fez foi transformar isto em imagem, o que é básico em seu meio. A aproximação com o 11-09 poderia ser válida, mas todos os espectadores sabem que Batman: The dark Knight é um filme baseado em HQ. Basta o sr. ler algumas edições de Grant Morrison, Frank Miller e Joseph Loeb e o sr. teria o instrumental básico...
Agora, vamos para a sua nova (não tanto, não é?) comparação com o terror. Como o sr. pode ser tão cego a ponto de declarar que o terrorismo não tem motivação? Concordar com Jean Baudrillard não é refletir sobre o que ele disse, mas simplesmente plagiá-lo. Acredito que o sr. tem uma ótima motivação para escrever – alimento de seu ego pretensioso e um desejo sincero de reconhecimento pelas jovens de hoje em dia...
Dizer que o filme é uma luta do controle (paranóico) conta a anarquia (patológica) é afirma a obviedade do filme, mas acredito que o sr. não tenha percebido o seguinte: Batman coloca-se ao lado da anarquia desde o primeiro filme – ele é o homem que luta pela segmentação da força de controle (polícia) entre os indivíduos da sociedade. Porém, ele é uma singularidade nesse universo, e somente seus aliados têm real noção disso... Entretanto, o sr. preferiu ver o George W. Bush nele...
Sobre a última carta de Xexéo:
Repito o que disse antes: se não tem nada a dizer, por favor, não diga...
O sr. somente queria citar Shakespeare, não é? Isso foi muito feio, ai, ai, ai...