20 de abr. de 2009
Concertino de Câmara.
STACATTO
Um dia ela acordou e viu que não tinha mais nada em casa. Levantou-se e permaneceu sentada (a cama tinha-lhe sido roubada durante o sono). Olhou ao redor e estranhou as paredes, como se não fossem. E o sol que descia à janela parecia o mesmo, mas já não era mais o dela, era como algum raio que lhe havia sido roubado também durante a noite. Tocou com as solas dos pés no chão (roubaram-lhe as sandálias e as pontas sensíveis dos dedos) e mordeu a palma da mão. Cerrou os olhos pra ver se dormia de novo e acordava na casa de antes, com tudo intacto, o relógio de parede velho, a vizinha que reclama do gato fugido pelo corredor. As pálpebras tremiam umas contra as outras, brigavam entre si pela escuridão.
As pessoas lá do térreo cada vez mais baixo. Sentiu o calor do suor provocado pelos raios de um sol recuperado. Tinha os olhos fechados, mais sentia os prédios se amontoando nas esquinas promíscuas daquela escuridão, eles gritavam mais alto enquanto as bolinhas luminosas pipocavam a sua frente. O gato miando na escada. Pobrezinho, deve estar com fome.
Agora aquela era a casa sim. Mas aí já não era mais dela.
LEGATO
Abre os olhos e reconhece a rua. As casas à esquerda tão iguais e tão diferentes. Ela diz a si mesma “vai passar, isso vai passar”, e as gotas cada vez mais estáticas do céu. Sacode os pés encharcados e percebe a infinidade que o gelado da água a leva a abandonar. Não há nem sequer um “se”. Tudo: uma réstia de samambaia pendurada de uma janela erma, o sorriso minúsculo das poças de água sob os varais comedidos, procissões de passos e suspiros sob o sono dos toldos. Cheiros e gostos irreconhecíveis e insondáveis pela bruma. Uma louça ao chão. Bater de talheres. Som rouco de matraca. Tudo calculado (uma vez que o caos é Deus caprichando).
Ela, parada, no meio. Tenta não reconhecer a rua. E os enormes canteiros de obras que escondem um pensamento de não vir. E um avião que cruza o céu silente e penosamente. E uma família que bem pode ser a sua, acenando de várias janelas. E os pombos, encharcados, comendo migalhas adocicadas de água nuvosa.
Aí ela finalmente se esquece da rua, e vira estrada.
ANDANTINO
Misteriosamente vaga e entorpecida a Dama do Sono afaga a cabeça dela e o pior é que ela não quer dormir ela não quer nada quer simplesmente sonhar acordada e olhar e não ter que escolher entre a baliza esquerda de granito e diamantes rústicos e a baliza direita de mármore e prismas encravados porque cada uma destas balizas tem as suas belezas eternas e inlapidáveis a um mesmo momento em que percebe o redor tão mais bonito sem a desnecessidade incomensurável de se escolher qualquer coisa que seja ainda que momentaneamente entrebatida nos reflexos entrebalizas criados por uma luz vermelhocorrompida ela tenta esboçar qualquer coisa que digam que é sentimento mas solta uma espécie de inarticulação e as balizas respondem com o eco que é próprio dos lugares aonde ninguém vai
finalmente cansada de contemplar cores que nem dela são mais olha as balizas e baixa a cabeça pesada porque sabe que qualquer uma pra qual ela estrada vire vai desaguar na amplitude de uma longínqua paisagem essencialmente inominável o próprio nome ”paisagem” não faz jus ela pensa parece triste essa constatação mas não é somente coriza no nariz e um pouco de autocomiseração ela calça botas de chuva e casaco grosso porque o tempo é inclemente e a jornada é longa e fascinante em si.
Ela sabe sorriso de estrelas e volteios no ar. Mas aí ela já virou viajante.
ALLEGRETTO
Tateia o chão seguro e compassivo: de cor repleta de vontades náufragas, gravetos de marrom despedaçado, paralelepípedos em clausura, enverdecidos de um cinza mornado, que esbarram no horizonte desmaiado. Ela corre as distâncias no olhar seco, ela corre os tornados tropicais, ela corre os tornados combalidos, pelo precioso colar da febre. São roseolhos tisnados, sofridos; e feridas alcantilopalinas; são corpos azulentrechocados. Mas também há flores e borboletas, e nelas qualquer cor é muito pouca, pois não há nada mais descabido, que contar o oportuno da rosa. O cheiro de café nas folhas soltas, de terra subindo durante o passo, de velha madeira de dar em doido, de correr mais do que o suor comporta. Cheiro de torto nos pulmões que enxergam: a grama levantada pela foice, de ar gelado de serra venturosa, de ladeira descida às baforadas, de todos os caminhos dos seus dedos.
Gosto de lençol apertado em pernas, de framboesa sob a pele enxuta. Amanitas servidas ao café. Ponta da língua ocultando o sutil, o doce do olhar do suor do outro. A terra subindo, entrando na boca. Enquanto os abraços trocam de dono. Há sentido infinito em alcançar, com o paladar anestesiado, o corpo reclinado e solto, os cotovelos que apoiam a matéria, o recôndito d’alma descoberta.
Ela se ilude com o tempo, mas aí tateia o chão seguro e compassivo.
6 de abr. de 2009
Vestibular – Independência ou gonorréia intelectual!!!!
Advertência: Caros leitores, o presente texto não é aconselhável a menores de 15 anos, idosos e pessoas que estão envolvidas direta ou indiretamente com educação. Este texto trabalha tão somente com as grandes políticas públicas com relação ao ensino de nossos jovens e não a práticas individuais ou mesmo locais.
Não pude deixar de rir hoje, dia 29 de março de 2009, ao ver no programa humorístico-jornalístico Fantástico a notícia que falava do fim do Vestibular. Trata-se do fim de um remanescente da meritocracia que reinava no ensino até poucos anos atrás. Hoje temos a aprovação automática unida ao Bolsa-Escola, ou seja: o pivete fica uma porrada de anos com professores mal remunerados para que seus pais possam receber um minguado auxílio que não paga sequer uma cesta básica. Quando pensamos que o pivete está aprendendo algo, o que acontece? Merda! Ele está somente cumprindo horário para sair da escola sem fazer as quatro operações básicas e assinando seu nomezinho para poder votar.
Qualquer pessoa diria nesse momento: “Então o problema é do sistema, mas o que podemos fazer?” Desculpem-me, leitores, mas não sou Michael Moore. Enquanto considerarmos que os planos mirabolantes sejam a única resposta para o país do futuro, continuaremos a viver esperando o tempo em que o Brasil se tornará um país que preste...
Desabafos à parte, vamos ao que interessa: na matéria do Fantástico, vimos que o
Governo Federal vai (pretende) mudar o sistema de entrada de alunos nas universidades federais. Ao invés de usarmos o tradicional Vestibular (com cada universidade mantendo a sua virtual autonomia), teremos o ENEM, ou seja lá como chamam, como principal meio de acesso às universidades. Já imaginaram o quanto o ENEM se tornará parecido com o Vestibular em pouquíssimo tempo? Não, mas parece que a Rede Globo também tem essa mesma miopia. A proposta é vista de maneira benéfica ao país pela grande emissora. Para eles, segundo o Fantástico, melhor dizendo, segundo o que o Zeca Caralho disse no meio da notícia – algo que fora escrito para ele, aposto – esse novo sistema é mais “democrático” e mais interessante. Interessante para quem, cara pálida? Para as pessoas da classe AAAA que têm como pagar os melhores cursos para se darem bem no ENEM?
Gentem, como diria a Franchona do BBB9, esse tipo de iniciativa só serve para dizer às universidades: “Quem manda nessa bagunça que vcs chamam de meritocracia é o Governo, ok?” Fazer com que o ENEM se transforme em um novo tipo de Vestibular é a mesma coisa que o Governo do Rio de Janeiro tem feito aos professores: dado laptops para que eles calem a boquinha na hora de reclamarem que não ganham nada do governo...
E tenho dito!!!!