18 de dez. de 2010

A saúde do Ensino Médio

Nas últimas décadas o Ensino Médio, antigo segundo grau, mudou sua estratégia de comercialização do Ensino. Antes, a preocupação estava na formação dos alunos em seres humanos críticos, mas os pedagogos logo descobriram que a sociedade não é mais guiada por objetivos de ordem espiritual. A sociedade hoje quer resultados mais pragmáticos, ou que sejam pretensamente pragmáticos.

Nossa população é formada por um aglomerado de pessoas que recebem muito pouco e que sonham para seus filhos uma vida melhor, juntemos agora políticas de educação que visam a implementação de governos de 8 anos, o que teremos? Primeiramente, no governo FHC a implementação, via lobby da aprovação automática de alunos em escolas públicas e a amenização da reprovação dos alunos de escolas particulares por todo o Brasil - e, dessa forma, quem tem entre 18-25 anos e não estudou em colégios conservadores, pode procurar um psicólogo, pois sua educação formal serviu somente para a formação de um beócio. Quer uma prova do meu argumento? Basta uma simples busca no Google com os verbetes contratação, Brasil, estrangeiros e veja o que está acontecendo agora. Para quem ainda não entendeu: qualquer prática de educação que é feita no mundo, demora, no mínimo 10 anos, para surtir algum efeito, não existem efeitos de curto prazo em práticas educacionais.

No governo Lula, duas práticas se revelam, em médio prazo, extremamente perigosas para o futuro desse país. A primeira delas chama-se Universidade Para Todos. Primeiro, na atual conjuntura brasileira, a Universidade serve a dois propósitos - o primeiro é a formação de mão-de-obra especializada em várias áreas;imgres o segundo é a pesquisa lato sensu. Dessa forma, não é qualquer um que pode entrar na Universidade, o candidato precisa ter conhecimentos de língua, matemática e raciocínio lógico e basta. Com isso, o candidato estaria apto a ser um dos muitos calouros nas universidades brasileiras. Entretanto, a ordem do dia é lotar as Universidades  com todas as vagas oferecidas. Isso gera uma distorção que já é perceptível até mesmo no nível das provas de Vestibular - se olharmos a enxurrada de notas baixas que geram aprovação de alunos, podemos perceber que o Ensino Médio, após a década de 1990 - quando toma para si o slogan de percentual de “aprovados no Vestibular” como marca de mérito - percebemos que nem mesmo essa missão o Ensino Médio (público e particular) consegue realizar. Além disso, a quantidade absurda de alunos que não estão aptos ao Ensino Superior é alarmante, o que já indica (apenas 5 anos após as iniciativas de ENEM e Vestibulares por grandes áreas de conhecimento) uma queda no número de pesquisas realizadas por alunos - basta olhar os sites de fomento para que seja possível ver essa queda nos últimos 10 anos.

O mais alarmante é a progressiva política de cotas universitárias. Simplesmente não há consenso para a implementação de uma política já implementada. Enquanto a UNB tem uma avaliação psicológica para a garantia da inscrição do Cotista, outras Universidades adotam a cara-de-pau (ou seja, a auto-declaração) para o ingresso nessa política. Onde estaria, então, o mérito desses alunos em seus conhecimentos específicos? Se somarmos isso ao abrandamento lógico das correções de vestibulares para que TODAS as vagas sejam preenchidas temos a resposta da questão.

Basicamente, o Vestibular hoje não é o reflexo da formação dos jovens nesse país. O Ensino Médio não está mais preocupado com a formação de nossos jovens. A ordem do dia é passar e passar e passar até que o aluno empunhe o seu diploma de doutorado com louvor, sabendo de antemão que ninguém descobrirá o “pulissa” escrito em sua tese sobre a “Problemática da iniciação das Tropas de Elite no Rio de Janeiro e a sua contra-parte paulista - o GARRA”.

15 de ago. de 2010

Há responsabilidade na mídia nacional?

Apesar do longo período ausente, o retorno a este espaço faz-se em hora oportuna. Há pouco tempo, tomei ciência da proibição (censura) de piadas acerca dos elegíveis para qualquer dos cargos nesse ano. Sinceramente? Sou favorável a determinado tipo de censura que ocorreu no Brasil nos idos de 1800, mas, nesse caso, a proibição é nada menos do que um reflexo da deturpação do conceito de bullying que a própria mídia fez questão de banalizar.

Querendo proteger as crianças de traumas, nossos caridosos meios de comunicação superdimensionaram o conceito de bullying, tornando possível a um jurista impedir que a própria mídia fizesse humor, entendido por aquele como humilhação. Agora, a própria mídia televisiva se diz castrada em sua liberdade de  expressão. Bem feito!

Na Inglaterra, a rede BBC produziu um documentário de 01:27 sobre o tema. Nele, psicólogos explicavam os conceitos gerais que permitem o reconhecimento dos sintomas de uma criança que sofre desse distúrbio. Duas semanas depois, o documentário foi reprisado com o tempo de duração em pouco mais de três horas. Os psicólogos se juntaram e moveram uma ação judicial contra a rede de televisão, apelando à responsabilidade da informação veiculada pelo canal. Ganhando a ação, essa junta de psicólogos listaram diversos pontos que a primeira edição foi, segundo eles, irresponsável. Explicando melhor: em partes que os estudantes da mente humana consideraram que o corte é nocivo ao entendimento do tema, a cena era passada na íntegra para que não houvesse dúvidas a respeito do tema.

Infelizmente, no Brasil, não existe uma lei sobre responsabilidade de informação. Infelizmente, a mídia televisiva no Brasil não possui um código de ética estruturado. Infelizmente, a censura de que tanto reclamam é causada por sua própria  irresponsabilidade com relação às informações capengas que veiculam. Deram os argumentos necessários para que os elegíveis alegassem um futuro bullying? Sim e, por essse motivo, bem feito!

2 de jul. de 2010

Por favor, deixe-me torcer

0,,35900018,00Algumas cenas ficam marcadas nas nossas cabeças. Antes do primeiro jogo do Brasil, vi uma dessas. Estava saindo do Mergulhão quando aviste aquele mar de camisas verde e amarelas. Ouvia La Tempesta di Mare, sinfonia em ré menor, de Carlo Monsar no rádio e por alguns segundos, tive a sensação que o tempo passou mais devagar e tudo se moveu como música. Uma pequena legião que havia saído do trabalho às 14h indo junta na mesma direção – todos corriam, mas para mim, sob o sol frio daquela tarde, a cena durou uma eternidade.

Havia uma beleza naquela visão, uma beleza naqueles fogos de artifícios e cornetas, naquela turba louca para chegar em frente a um televisor para assistir a estréia do Brasil na Copa da África contra a Coréia do Norte.

img63576bg Nunca, na minha curta vida, vi tantas bandeiras e camisas espalhadas pela cidade. Muitas vezes sou recriminado quando digo que amo a Copa do Mundo. Então eu argumento: bendito seja o evento que une em uma só nota uma nação como Brasil. Mesmo que o grito seja apenas por gols, mesmo assim, bendito seja o futebol, que nos faz gritar juntos.

Mas a verdade é que a globalização tornou esta história de nacionalismo demoder – quase tanto quanto está palavra. É complicado exaltar o nacional quando você é acordado por um despertador feito na China, vai para o trabalho com o ônibus de uma marca alemã, almoça em um restaurante árabe... Esta é a faca de dois gumes da queda das fronteiras: nos aproximamos uns dos outros, mas segundo alguns, perdemos um pouco da nossa identidade. Mas afinal, o que é esta nossa identidade?

BXK138392_cachorra-laila800O que é ser brasileiro? É amar um estado corrupto e falido? Ou nascer nessa terra, viver com esse povo, com essa cultura? Para os que concordam comigo que a segunda opção é mais válida, outra pergunta: o que é mais brasileiro do que futebol? Afinal, somos o país do futebol. Fizemos do futebol o esporte mais brasileiro do mundo.

Então sim, é apenas de quatro em quatro anos que vemos tantas bandeiras nas janelas. É verdade. Mas de quatro em quatro anos o país sente orgulho de si próprio. De quatro em quatro anos nos curamos por um mês do nosso complexo de vira-lata, saímos das quatro patas e provamos que podemos ser um pouco mais.

00341Quando eu olho para o campo o que eu vejo é toda uma nação focada nos pés de onz e pessoas. Não, eles não são doutores, não senhor. Mas são mestres da bola. Não tem diplomas, mas são artistas. Sua tela? O gramado. Ali, o que acontece é mágica e não uma simples glorificação da ignorância como alguns dizem. De pouco me importa os salários astronômicos que eles ganham em seus times. Ali, o que eu vejo são brasileiros. Brasileiros levando o sonho de 190 milhões nas costas – ou melhor nos pés. E qual o problema em sonhar?

chongAlguém lembra, também neste primeiro jogo, de Jong Tae-Se, craque e único atacante da Coréia do Norte, chorando, chorando com uma emoção de dar dó ao ouvir o hino de seu país? Seu país, a Coréia do Norte, um dos regimes mais fechados do mundo, parte do chamado Eixo do Mau. Mais era sua terra. Sua Coréia.

Comovi-me com as cenas dos africanos pelas ruas de Cidade do Cabo após a eliminação  da África do Sul. Não é curioso como nós ­– brasileiros e africanos – somos parecidos na hora de sentir? Sem meio termo.

Acho muito, muito impressionante o momento do hin o. Seja com todos em silêncio ou cantando juntos. É um símbolo incrível. Como de soldados prestes a ir ao campo de batalha. E de uma certa forma, é o que eles são: nossos heróis modernos.

Logosouthafrica2010Mas é preciso que entenda bem, meu senhor: não estou falando de nacionalismo. Copa do Mundo não é nacionalismo. Você pode argumentar que futebol é política. Que futebol é isso, é aquilo outro. Mas eu vou lhe dizer: futebol é paixão. Copa do Muno é paixão. É disso que estou falando. E pobres são aqueles que vivem sem paixão.

É claro que o Mundial de Futebol não acaba com os  problemas. Enquanto torcemos, pessoas ainda passam fome, a violência tira vida inocentes, os nossos políticos continuam a roubar... Mas então, deveríamos parar de torcer? Lamentar ainda mais ajuda a mudar alguma coisa? Muitas vezes os que mais lamentam e mais pedras atiram são os que menos fazem alguma coisa para mudar o país de que tanto se envergonham.

Torcida004O que tem de errado em ver a seleção de seu país jogar? Por favor, deixe-me sofrer! Deixe-me gritar, sim! Deixe-me roer as unhas e fazer promessas descabidas ou gastar dinheiro com superstições juvenis! Permita-me vibrar quando a bola atingir a rede do adversário e saltar com o grito de gol. Vestir minha camisa azul e branca e sair pelas ruas comemorando como se tivéssemos ganho o direito a própria vida. E deixe-me, por favor, derramar minhas lágrimas na derrota. Deixe-me.

Brazil Chile Wcup SoccerEntão você, incapaz de sofrer, me dirá, “Por que tudo isso por futebol”? E eu lhe responderei: “E por que não?” O que tem de errado? Sofremos por tantas outras coisas babais e nem percebemos... O que, entre o céu e a terra, decide quais das nossas lágrimas são válidas? Para mim, pobre são os que não conseguem vibrar, os que não sentem o peito disparar ao soar de um grito de gol. Pobres são aqueles incapazes de sonhar um sonho inocente como este. Triste, sim, são os que não conseguem deixar a amargura de um país cansado de lado por um mês. Porque estes deixam de viver uma das mais belas experiências de ser brasileiro.

E é por isso, meu senhor, que eu lhe peço: deixe-me torcer em paz!

 

P.S.: Hoje, às 11:00, o Brasil enfrenta a Holanda pelas quartas de final. 190 milhões de corações canarinhos estarão olhando para o mesmo objeto esférico, desejando a mesma coisa. Digam-me que não há poesia nisso? Vamos, diga-me!

19 de jun. de 2010

A Língua Portuguesa está órfã

Aos 87 anos, morre o autor Jóse SaramagoFoi com esta frase que o apresentador Serginho Groisman definiu em um tweet – que ironia...– a triste perda que nós sofremos hoje: às 12h30 (horário local), morreu José Saramago, em sua residência de Lanzarote, aos 87 anos de idade, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença.

A notícia matinal pegou-me de surpresa. Percebi que, talvez por ingenuidade ou egoísmo, achava que Saramago escreveria para sempre. Que eu sempre estaria esperando seu próximo livro ou suas próximas considerações sobre o mundo atual. Obviamente, estava  enganado. Há morte chega mesmo para os gênios, os sábios. Mesmo para os imortais.

Saranago na cerimônia do NobelVencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1998, acho incontestável que a obra de Saramago ajudou a definir a chamada literatura do século XX. Dotados de sarcasmo e de um humor ácido, aliado a uma sensibilidade ilimitada, seus livros eram muitas vezes de uma genialidade polêmica.

Foi através de A balsa de Pedra que entendi o sonho português. Do Memorial do Convento que entendi sua melancolia. Com História do Cerco de Lisboa aprendi sobre mim mesmo.  Já o Ensaio Sobre a Cegueira falou-me do ser humano. E foi assim, livro após livro, que este português descrito pelo New York Times como “austero e seco” foi me cativando com seus textos.

Ateu convicto e profundamente anti-religioso, Saramago foi também um homem crítico. Denunciou injustiças. Não tinha medo de falar de política, de escrever e de dizer o que pensava. Comprou brigas pessoas e entidades importantes como o Vaticano, o político italiano Silvio Berlusconi e até com o estado de Israel. Talvez seja por isso que de todos os principais jornais de língua anglo-saxonica, o Times tenha sido o único que deu o devido destaque a sua morte, na primeira página.

Em 2008 permitiu que seu livro Ensaio sobre a cegueira fosse levado às telas pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles. Sua única exigência? Que a produção não incluísse nenhuma referência de lugar na história. Queria que o filme fosse o mais universal possível. Conseguiu.

Saramago e sua esposa, Pilar del Río. Recentemente parti de uma de suas declarações ao escrever um post aqui para a Perene Discussão. Lembrar disso faz com que eu reflita um pouco sobre o que disse no início deste texto sobre a perda de Saramago. Na verdade, estava novamente enganado. Saramago só mudou de forma. Como diria Alotysio Ullmann sobre a morte do filósofo romano Marco Aurélio: deixou a vida para juntar-se ao cosmos. Sua obra continua imortal.

Encerro aqui com o último texto postado em seu blog, Outros Cadernos de Saramago – que não poderia ser uma despedida mais adequada:

"Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma"

7 de jun. de 2010

Vida Sintética, Religião e Bioética

celulas-modificadas-vida-20100520195509No dia 20 de maio uma notícia sacudiu a comunidade cientifica: uma equipe de 27 pesquisadores, liderados pelo Dr. J. Craig Venter, anunciou oficialmente a criação do primeiro ser vivo feito com DNA 100% sintético.

Pareceu confuso? Então vamos usar outras palavras: Venter conseguiu desenvolver em laboratório a primeira célula de bactéria sintética e auto-replicante – capaz de se reproduzir sozinha. O genoma foi inteiramente projetado em um computador e desenvolvido por meio de processos químicos, sem nenhum traço de DNA natural. Isso foi possível usando uma célula oca, ou seja, sem material genético, na qual os cientistas aplicaram o novo DNA.

Dr. J. Craig Venter Os ramos de possibilidades que esta experiência abre são simplesmente incontáveis. Os mais empolgados dizem que, pela primeira vez na história da humanidade, o homem foi capaz de criar vida autentica artificialmente. Não é como moldar uma criatura em barro e ela sair por aí andando e comendo maçãs, mas dentro dos limites da realidade a experiência de Venter tem um impacto sem precedentes.

Só para se ter uma idéia do que estou falando, através deste novo ramo chamado biologia sintética, dentro de alguns anos será possível criar coisas tão abrangentes como novas fontes alimentares, energia limpa e renovável, bactérias capazes de limpar o CO2 da atmosfera ou de despoluir a água. Tudo isso “apenas” manipulando elementos químicos para se criar um organismo capaz de realizar a tarefa necessária. Não é exagero dizer que seria possível até mesmo, em um futuro ainda indefinido, desenvolver novas formas de vida complexas do zero. Teríamos finalmente tomado as rédeas da criação? Embora se a bactéria criada é ou não “vida pelas mãos do homem” ainda é motivo de muito debate entre os cientistas, é quase que certo que esse será o próximo passo.

Está pergunta certamente tirou o sono do Papa, pois levou o Vaticano rapidamente a se pronunciar sobre o nascimento de Synthia ­– nome dado pelos cientistas a nova bactéria: só deus pode criar vida. Segundo o bispo que deu a declaração, esse tipo de descoberta só será bem vinda se for usada para o bem da humanidade, como fins terapêuticos etc. O que me preocupa é o que uma instituição que condena o uso de preservativos e métodos contraceptivos em pleno século 21 e com uma epidemia de HIV matando milhões de pessoas vê como o bem da humanidade...

synthiaHá quem diga também que a existência de Syntia caí como uma bomba sobre o dogma cristão. Eu diria que a bactéria é, desde Galileu, uma das maiores feridas no orgulho da  Igreja Católica. Primeiro o astrônomo comprova que não somos o centro da criação. Agora, Syntia vem contestar a própria criação. Ao se tirar de deus o monopólio sobre dom da criação, o Gênese fica em xeque: ou admite-se que o homem se iguala a deus ao criar vida ou se considera o fato de que a concepção de vida não é tão extraordinária assim, logo não precisaria ter sido criada por um designer inteligente. Em ambas a religião sai perdendo, mas aposto que o Vaticano vai ficar com a primeira opção e apelar para a boa e velha premissa do “já estava previsto no plano divino, que nos fez assim, capazes de executar tais atos bla, bla, bla...”, como já fez com a clonagem e com a pesquisa de células troco – resumindo, deus criou o homem com esse dom, mas ele não pode usar porque é pecado.

(Agora um parêntese para um comentário mais pessoal: será que desde a Baixa Idade Média alguma outra instituição causou tanto atraso no desenvolvimento da sociedade humana quanto a Igreja Católica Apostólica Romana? Fim do parêntese.)

Saindo das páginas dos livros de estória e entrando para o mundo concreto, temos o caráter evolucionista da questão. Se considerarmos alguns teóricos mais modernos da Biologia Social, porque não admitir que a criação de vida artificial faz parte do processo evolutivo natural da espécie humana tanto quanto o desenvolvimento do ossos ocos e penas nos pássaros? Estaríamos então pré-destinados a concretizar tudo que somos capazes de fazer tanto pela ciência quanto pela religião?

Enquanto isso...

John Sulston Enquanto debatemos a moral, a ética e toda a filosofia inerente da criação de vida artificial, os homens de preto (ou melhor, neste caso, homens de branco, de jaleco) já estão pensando em commodities. O Nobel de Medicina John Sulston já lançou o alerta sobre o perigo de Venter possuir a intenção de patentear a vida artificial. É isso mesmo, patentear.

Faz alguns anos, Venter e Sulston protagonizaram a mesma discussão durante as pesquisas do genoma humano, quando Venter liderava o segmento privado e Sulston o estatal da empreitada. Sulston saiu ganhando quando por ocasião o debate entre setor público e privado terminou quando chegou-se à conclusão de que “ao se tratar do genoma humano, os dados deviam ser de domínio público” – palavras do próprio Nobel.

A preocupação de Sulston é legitima. Se levarmos em conta a abrangência da descoberta, ter todo esse conhec imento restrito a um único nicho, seja uma companhia ou país, é   quase tão grave quanto se, por exemplo, há 30 ou 40 anos toda a tecnologia nuclear do mundo estivesse sob domino americano ou soviético. Isso tanto devido ao potencial bélico – através dessa nova área da ciência prevê-se a criação de armas biológicas perfeitas, com 100% de eficiência, 100% feitas pelo homem – quanto ao terapêutico da descoberta.

dados-021A Teoria dos Jogos, – famosa por ter entre seus principais pesquisadores outro Nobel, Johon Nash, que teve sua biografia levada as telas dos cinemas no filme Uma Mente Brilhante –­, ramo da matemática aplicada usado para examinar desde a concorrência e a cooperação dentro de pequenos grupos de empresas até relações internacionais complexas, afirma que é preciso haver um equilíbrio de entre os competidores para que se tenha uma sociedade com o mínimo de conflitos.

Se consideramos a tendência violenta do ser humano... Bem, melhor deixar isso para um próximo post.

30 de mai. de 2010

Em defesa do rei

Roberto Carlos - DiscografiaAntes de tudo, não se engane. Este não é um post sobre música. Tão pouco uma manifestação de tietagem de qualquer espécie. A motivação inicial para esse texto veio logo após uma conversa de mesa de bar – interessante como certas idéias surgem nas mesas de bar, não? – onde pude observar que mesmo entre pessoas aparentemente muito esclarecidas da geração 1980/90, existe um grande preconceito diante da obra de Roberto Carlos. Preconceito no sentido real da palavra: 1. Ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial. 2. Opinião desfavorável que não é baseada em dados objetivos.  (fonte: Dicionário Priberam)

Temos que começar admitindo que a forma como a imagem desse artista aparece na mídia tem se tornado meio cansativa para as novas gerações. Em 2009, por exemplo, fomos bombardeados por uma série de especiais comemorando seus 50 anos de carreira. E, convenhamos, esse tipo de coisa realmente testa a paciência de qualquer expectador... Mesmo assim, Roberto Carlos, ou melhor, o Rei Roberto Carlos – afinal, como falar dele sem utilizar o já consagrado título de nobreza que o acompanha desde que eu me entendo por gente? ­–, ainda mantêm seus tradicionais especiais de finais de ano com uma boa audiência garantida por uma legião de fãs que o acompanham desde os tempos da Jovem Guarda.

roberto_carlos_cantor1Aqui eu faço um pequeno parêntese. Não é curioso como o ser humano gosta de atribuir essa figura despótica e absoluta a determinadas pessoas? O Rei do Pop, O Rei do Futebol, A Rainha dos Baixinhos, A Rainha do Bumbum – e vou parar por aí com os exemplos antes que o nível deste post decaia demais e precise ser censurado. Acho que no fundo precisamos de uma figura de poder sobre nós. Precisamos criar um ícone, incontestável e impoluto... só para depois ridicularizá-lo. Afinal, depois da Bastilha o destino de todos os reis e rainhas é o mesmo: perder a cabeça.

Em parte é este o “fenômeno”, se é que posso chamar assim, que motiva este texto. Tenho percebido, principalmente nestas gerações mais jovens, certo demérito com relação à figura de Roberto Carlos. Não estou me referindo a uma questão de gosto e sim a um aspecto geral. Tenho a impressã o de que a intelectualidade formou uma visão um tanto deturpada e obscurecida de sua música desde a época da ditadura militar.

di00757Um dos pontos que mais me incomoda é a comparação com Chico Buarque, como se este e aquele fosse respectivamente o que a de melhor e pior na produção artística brasileira dos anos 1960/70. Nessa época o Brasil vivia um dos períodos mais vergonhosos da nossa história e foi justamente por sua apatia perante a ditadura militar  que a música de Roberto Carlos passou a ser considerada nessa época por muitos intelectuais como  pobre e alienante.

Enquanto DOPS fechava e censurava os shows de Chico, a Polícia Militar fazia segurança nas apresentações da Jovem Guarda, movimento encabeçado por Roberto. É claro que esse não envolvimento era o tipo de coisa que aqueles que lutaram ativamente contra o regime não iriam perdoar.

O tom político da obra de Chico Buarque obviamente contrasta com as canções repletas de temas, primeiro juvenis, depois românticos, de Roberto Carlos. Os críticos, obviamente, acusavam sua música de falta de engajamento – os anos 1960 e 1970 foram períodos muito fortes da arte engajada, não apenas na música, mas no teatro e cinema.

wilde-oscarEstes argumentos, porém, levam-me a uma série de questionamentos. O primeiro deles é  uma tecla que eu sempre bato: a arte precisa mesmo ser engajada para ter algum valor? Não deveríamos ser capazes de apreciá-la e julgá-la apenas pelo seu valor estético e não pelo seu contexto político-social? O bom Oscar Wilde não dizia, pela boca do cínico Lord Henry Wotton, que “a boa arte é aquela que é completamente inútil”?

Considerando que Roberto Carlos fosse contra a ditadura – o que não é exatamente relevante aqui. Em, digamos setenta milhões de brasileiros, quantos por cento da população estavam, de fato, se importando para quem  estava no governo? ­–, por viver em um país nesta situação, ele teria a obrigação de colocar sua música a serviço democracia? Seguindo essa mesma lógica, um escritor africano só poderia escrever sobre a miséria e o sofrimento do seu continente, sem nunca poder se aventurar por outros temas, como por exemplo, uma narrativa de ficção científica ou seja lá o que for? Esse é o papel que delegamos a arte? Seria esta então uma forma de expressão ou um meio de comunicação?

Particularmente acho uma besteira que arte precise ter consciência. Cobrar temas específicos de artistas ou estabelecer assuntos ética ou moralmente proibidos é tão castrador quanto à censura institucional. Deveríamos, segundo a este ponto de vista, queimar todas as cópias de Lolita, de Nabucov ou toda a extensa obra do pervertido e talentoso Marquês de Sade? Já disse e repito: arte não pode ter lugares proibidos. Isso é amordaçá-la. O artista tem direito sim, aos tabus, aos temas eticamente questionáveis e, porque não, a futilidade. Não vejo nada de errado na futilidade.

Sem sair do assunto, o segundo ponto normalmente ignorado é o contexto pessoal de cada um nesses casos. No exemplo aqui discutido, a diferença é bastante significativa para ser simplesmente deixada de lado.

chicoNão quero de maneira nenhuma desmerecer a contribuição que Chico Buarque deu para a redemocratização do Brasil. Nem tão pouco ignorar toda a opressão que ele certamente passou nessa época. Mas há de se convir que é ligeiramente mais fácil falar contra o regime quando se é filho de Sérgio Buarque de Holanda...

Neste caso sou obrigado a considerar o papel que o berço tem na formação dos indivíduos. Enquanto Chico era um Buarque de Holanda, nascido no Rio de Janeiro, criado em meio a viagens pela Europa, em contato com toda a elite cultual da época, Roberto era da pequena Cachoeiro de Itapemirim dos anos 1940, filho de um relojoeiro e de uma  costureira.

É claro que os ideais de liberdade de expressão e democracia estavam muitos mais ligados a realidade do infante Francisco do que do pequeno Roberto. Não é segredo que o movimento contra a ditadura durante muito tempo se limitou a uma elite cultural que tinha acesso a toda uma educação e formação vindas do estrangeiro. É natural então que a arte de Chico na maturidade refletisse essas vivências, esse desejo cultivado ao longo de uma vida.

Igualmente natural que os temas juvenis, em um primeiro momento, e os dramas e conflitos românticos, em um segundo ocupassem um lugar de destaque para alguém com uma formação mais simples.

maquina_mortifera_1987_posterOutra acusação muito comum é a falta a de originalidade, com letras bregas e bobas. Acho que isso é parcialmente verdade, mas não da maneira que é apresentada por aí. Vejamos... responda rápido: o que E o Vento Levou..., Casablanca, Máquina Mortífera e Rock, o Lutador têm em comum? Todas essas histórias, sob uma perspectiva atual, são clichês. Se alguém tentar um roteiro com alguma dessas fórmulas puras hoje em dia, sem  nenhuma inovação, pode ter certeza de que ele vai terminar dentro de uma gaveta. Mas em sã consciência, algum crítico atual poderia questionar o valor de algum destes filmes? Certamente não. Isso porque eles vieram primeiro. Cada um desses longas foram obras delineadoras. A mesma coisa acontece na música. Então não custa nada lembrar, antes de classificar, etiquetar e descartar Roberto Carlos junto com toda uma gama de cantores românticos, que ele foi um pioneiro.

rcA sua primeira fase, a do Iê, iê, iê, tem, acho que todos vão concordar, muita influencia de artistas como Elvis Presley, Little Richard, Chuck Berry e finalmente, dos ascendentes Beatles – o que certamente Roberto ouvia na juventude. Ok, não vamos fazer comparações, mas vamos admitir ao menos que ele foi um dos responsáveis por abrir caminho para esse gênero musical no Brasil. A semelhança é tão óbvia que os filmes que gravou no período da Jovem Guarda, como Roberto Carlos Em Ritmo de Aventura, Roberto Carlos e O Diamante Cor de Rosa, são os filmes do Elvis, ou mesmo da primeira fase dos Beatles, cuspidos e escarrados. Toscos toda vida... claro.

Original realmente ele não foi, mas que atire a primeira pedra aquele que não admite nenhuma influência do estrangeiro. E as letras, o estilo deste primeiro momento, seguiam uma vertente lá de fora do rock da época que é idolatrada por muitos até hoje. Os mesmos que fazem bico só de ouvir o nome Roberto Carlos.

Algumas das letras de sua fase mais madura – depois do Iê, iê, iê e antes fase mulheres de óculos, mulheres quarenta, mulheres pernetas etc – não deixam a desejar em nada se comparadas a algumas composições de cunho mais romântico da bossa nova tidas como “música de qualidade da elite intelectual”. Muitas compostas pelo próprio Roberto sozinho, sem parcerias.

Em minha opinião essa é uma das fases mais injustiçadas do Rei. Este estigma de cantor das massas é difícil de superar e bloqueia totalmente a apreciação de algumas pessoas que se contentam com a simplificação na equação “popular igual à ruim”. Isso nem sempre é verdade – que o digam os grandes mestres do samba –, não tem pecado nenhum em fazer arte que atinja a todos. Diga-se de passagem, fazer isso sem perder qualidade, é sim, um desafio. E isto, sinceramente, acho que Roberto Carlos conseguiu muito bem.

Consigo pensar em poucas declarações de amor tão belas e profundas quanto Você não sabe, assim como em poucas músicas que representem tão bem o sentimento de perda e desolação quanto As flores do jardim da nossa casa. E o que dizer de Cavalgada, com sua letra repleta de paixão e erotismo? Até mesmo “clássicos de carro de som” como Detalhes: alguma vez você, leitor, parou realmente para prestar atenção nos detalhes dessa letra? De como o Eu lírico da canção recorda um grande amor com toda a ternura que alguém que levou um pé na bunda é capaz de nutrir? Detalhes é a palavra final no quesito dor de cotovelo abordada de uma forma no mínimo criativa: ao invés de simplesmente lamentar-se ele afirma como nunca mais será esquecido, alimentando sua própria auto-estima. Preciso dizer mais?

Gosto é uma questão subjetiva. Mas argumentos são argumentos. Você pode dizer que não gosta de cereja porque acha muito doce, natural. Agora não dá para dizer que morangos são ruins porque jacaré não come alpiste. Quer dizer, poder você até pode, vivemos em um país livre – a despeito das tentativas do PT ­–, mas não espera que alguém lhe leve a sério!

chico-buarquePara terminar gostaria de lembrar que sou apenas um pobre alienista e não um músico. Então, meu objetivo, como já foi dito, não é foi falar de música de forma técnica. Disso seria incapaz. Só o que fiz foi rebater com argumentos plausíveis certos lugares comuns que se instalam a respeito da arte. Falei de arte. Falar de arte eu posso. Todo mundo pode. Mas para aqueles que ainda querem ouvir um músico falando do assunto, dou a palavra para ninguém menos que o próprio Chico Buarque através de um trecho da letra de Paratodos, composição clássica do mestre dos olhos azuis em homenagem à Tom Jobim: Viva Erasmo, Ben, Roberto / Gil e Hermeto, palmas para / Todos os instrumentistas.

25 de mai. de 2010

“Hulk esmaga!” Ou a distopia da sociedade.

Afinal de contas, em que tipo de sociedade estamos? Já ouvi dizer que estamos na sociedade da informação, porém com 140 caracteres reinando como “informação”, acho que não somos muito bem informados. Já disseram que estamos na sociedade do conhecimento, mas isso é impossível quando leva-se em conta o que está acontecendo na maioria das universidades brasileiras. Já disseram que estamos vivendo a era da informação, acho que isso é ironia: era informação e agora é o quê? Titulação básica para o nada?

Bem, acho que estamos vivendo e sempre caminhamos para uma sociedade anti- socrática por excelência. Afirmo isso tendo em vista a lendária morte de Sócrates que, expulso de Atenas (a cidade da filosofia e do saber) preferiu tomar sicuta a continuar o seu trabalho em outro lugar. Ou seja, Sócrates legou para a humanidade não a ignorância, mas o desejo irascível ao não-transcendente. Notem que transcendente aqui não é uma forma de metafísica, o que seria, de fato, uma bobagem. Para transcender nessa sociedade é necessário um distúrbio sério de personalidade, não é mesmo, Fernando Pessoa?

Saramago, como afirma Ezequiel, fala que estamos caminhando para uma sociedade de grunhidos. Nada mais justo quando vemos que a opinião se torna algo que pode ser superior à pesquisa e à análise de fatos. Este blog, por exemplo, constitui-se como a exceção à máquina da blogosfera. Não somos conhecidos, não pretendemos ser conhecidos e nos propomos somente a seguir um método adaptado da filosofia socrática. Não há o interesse de mudar a humanidade, pois, se houvesse nos sentiríamos obrigados a tomar sicuta e todos os autores do blog somente apreciam cerveja.

Acho que o paradoxo na frase de Saramago está em chamar a atenção a um fato recente que está no âmago da história da humanidade. Não é preocupação nossa atestar a veracidade do incidente Sócrates, mas sim olhar como uma metáfora maior para o problema filosófico vital da humanidade. Há alguns anos, conversando com Soren eu disse a ele: “Cara, não podemos simplesmente educar as massas, pois a sociedade é preconceituosa em sua função mais elementar, a simbologia.” As relações simbólicas vigentes atualmente revelam que a importância do indivíduo estar em não se importar com o outro e cada uma de nossas modas culturais é um exemplo disso.

Em meados dos anos 1990, surgiu a moda do  jiu-jitsu nas academias brasileiras, ao mesmo tempo em que os Hooligans atingiram o maior índice de popularidade na Inglaterra. Isso por acaso significou um maior entendimento da filosofia japonesa, ou mesmo um maior saber sobre a relação torcida e jogador? Claro que não. Foi somente mais uma desculpa para que os “humanóides” (Watchmen – palavras de Ozymandias) pudessem fazer o que sabem melhor – grunhir e bater. Não há porque não adimitir isso: em 1986, Alan Moore escrevia sob o pretexto de ser uma entrevista com Adrian Veidt: “Toda essa abordagem aspirina dos problemas de nossa sociedade me incomodam muito. Não funciona.”. A única coisa de que discordo das palavras de Veidt é que isso funciona, tornando a sociedade cada vez mais atrofiada e anestesiada, estamos acabando com as diferenças fundamentais de escolha entre os seres humanos.

É certo que grande parte de nós, humanos. Escolhemos viver com nossas concepções e a defendemos com unhas e dentes para que seja possível viver feliz. “A ignorância é uma benção” seria a afirmação por trás da maioria das pessoas. Mesmo assim, elas querem estar em universidades e trabalhar para ganhar um tiquinho a mais de cascalho. Ou seja, os grunhidos não passam de pedidos de esmola em uma sociedade que não abre mão de dizer “I'm The Hulk and Hulk smash!!!!”

23 de mai. de 2010

Mudando de sistema operacional

Simplesmente, cansei. Passei anos aturando os problemas do Windows. Passei anos consertando, por mim mesmo, computadores Windows - antes mesmo de conhecer o caminho do Senhor... Agora, gostaria de mandar toda a empresa às favas, pois, a partir de hoje, sou um usuário feliz de um sistema operacional livre. Não paguei por ele (como pagava pelo Windows) e consegui uma interface mais agradável e mais complicada (bastando para resolver os problemas a simples leitura de comentários e afins), mas, com certeza, mais estável que a concorrência.

Adeus, Microsoft! Não foi bom para ninguém a nossa relação!

E tenho dito!!!!

"De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."

jose-saramagoPara quem não lembra o título deste artigo é parte da famosa - ou seria melhor dizer, infame? - declaração de José Saramago, prêmio Nobel de Literatura, sobre o Twitter em meados de 2009 ao jornal O Globo. Desde a primeira vez que ouvi essa frase me identifiquei profundamente. Na verdade, acho que seria mais apropriado dizer que identifiquei muitas coisas com essa frase.

A economia parece ser a regra de ouro na sociedade moderna. Economia de dinheiro, economia de espaço e, principalmente, a economia de tempo. Nesse ponto que entendo como os 140 caracteres do micro-blog se comunicam com os grunhidos.

No último século, fomos encolhendo para caber em espaços de 24 horas cada vez  menores. Para sobreviver nos dias de hoje, precisamos de cada segundo, de cada instante. Travamos um luta constante contra os ponteiros do relógio, cada um a sua maneira. Trocamos o modelo de carro (ou pegamos o metrô) para chegar mais cedo ao trabalho. Compramos aquele aparelho de celular que acumula 101 funções diferentes (e normalmente não faz bem nenhuma delas). Mantemo-nos "informados" com as tiras de notícias dos portais da internet porque sentar para ver um telejornal consom e tempo demais - ler um "jornal de verdade" então, nem pensar.

10000relogioAssim, a cada nova tecnologia, ganhamos segundos e com isso, paralelamente, deixamos a sociedade moderna mais veloz. O próprio advento da migração dos espaços sociais para a internet é um reflexo disso. Cada vez mais as pessoas encontram-se pelos programas de Mensagens instantâneas e sites de relacionamentos, diretamente do conforto de seus lares, e menos em bares ou locais públicos.

Lutamos constantemente para conquistar instante após instante, sempre empenhados na luta por novos clicks, segundos fugazes, mas que pautam como os riscos do relógio, o ritmo de nossas vidas.

Estamos na era dos livros curtos. Dos filmes curtos. Neste momento, você leitor, trata-se de uma exceção à regra: este próprio artigo, para os padrões da web e dos blogs, trata-se  de um texto longo, com mais de três parágrafos.

E assim, nesta brincadeira sem fim, apanha a arte e a criatividade. Não que não exista um mérito na capacidade de síntese. Existe, um mérito enorme. Alguns gêneros literários, como os roteiros de cinema e os haicais - aqui, opto propositalmente por considerar o roteiro como um gênero literário - tem suas bases fixadas exatamente no esforço de se dizer muito com pouco. Só que a síntese pela síntese não significa nada.

relogioO problema está quando isso se torna uma algema. Ou seja, entendo que o comentário do bom e velho Saramago, não está para o Twitter e sim para a epidemia de pessoas sedentas por 140 caracteres. Dos diários escritos todo dia com carinho e esmero, fomos para os blogs. Dos blogs fomos para o Twitter. E agora, para onde vamos? O quanto mais vamos encolher?

Ao que parece, depois de alcançarmos o topo, regredimos. Isso aconteceu em várias épocas, nos vários níveis da civilização. De pouco em pouco, estamos prostituindo o texto a serviço da mediocridade.

Não é segredo que atualmente a arte que vende é aquela feita para os que têm preguiça de pensar. Fato que às vezes é maravilhoso - além de ser de suma importância - descansar o cérebro do fluxo de informações constantes dos nossos dias em uma coisa simples. Mas em desmedida esse é um tiro que sai pela culatra. E assim caímos na armadilha das febres da internet, dos fenômenos instantâneos.

twitterO Twitter é o atestado de uma sociedade repleta de pessoas desesperadas por contato, por comunicação, por uma fagulha sequer de calor humano. Comprimidos,  esmagados por si próprios, entregam-se ao econômico mundo do micro-blog.

Qualquer forma de comunicação e interação entre humanos é válida em uma sociedade de ouriços. Mas o que fazer quando nos tornamos escravos, vítimas dos mesmos artifícios que usamos para burlar o tempo, ou melhor, a falta dele?

"Os tais 140 caracteres refletem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."

O que eu temo é que Saramago realmente tenha razão. Pois vejo uma sociedade cada vez mais reduzida em significados, caminhado para um assustador silêncio existencial.

7 de abr. de 2010

06/04/2010 – O dia em que o Rio parou


Que 2012 que nada: aqui no Hell’s de Janeiro o mundo acaba um pouquinho a cada dia. Mas neste dia 6 eu realmente pensei em procurar uma arca.

Brincadeiras a parte, chuva forte e alagamento nesta época do ano não é novidade para ninguém. Todo ano somos castigados pelas “águas de março” que levam o verão, que normalmente ninguém aguenta mais, em grande estilo. Tá certo que já estamos em abril e as águas de março não param de cair... e se continuar assim, não vão levar só o verão.

Ok. Parei com as piadas. Agora é sério. Estive pensando enquanto via o noticiário... o Rio de Janeiro fica entre o mar e as montanhas. Alguns lugares são verdadeiras “poças” naturais. A água desce por um lado e o vento as a marés empurram do outro. Ou seja, enche. Mas isso deveria durar minutos e não horas. E não deveria acontecer em cima viadutos...

Vamos culpar as autoridades? Sim, vamos culpar as autoridades. Aqui no Brasil elas sempre têm uma parcela da culpa (normalmente a maior parcela). Mas todas as vezes que eu caminho pelas ruas em noite de coleta de lixo me vem a seguinte conclusão: “Macacos me mordam Batman, como o carioca é porco!”. Impressionante. As pessoas não conseguem ensacar o lixo e colocá-lo de uma forma organizada na porta de suas casas. A sujeira é tão grande em algumas ruas da cidade que dia de lixeiro já virou sinônimo de dia de ratos.

Considerem que se já não bastasse isso, os poucos sacos fechados decentemente muitas vezes são abertos e revirados por moradores de rua que espalham ainda mais o lixo. Como culpá-los? Como você vai explicar para um cara desses, que vive em condições sub-humanas, que depois a chuva levar aquela sujeira para ralo, ele vai ser o primeiro prejudicado quando a água começar a subir? Sim, falta educação. Falta comida, falta um monte de coisas... Mas que as pessoas são porcas, isso elas são! É impressionante como o ser humano tem facilidade de viver na sujeira. Às vezes atitudes mínimas podem melhorar isso.

O impolutissímo prefeito, senhor Eduardo Paes, prometeu deixar o centro da cidade um dia todo sem garis. Infelizmente, como todo bom político, ele não cumpriu a promessa. Em ano de eleição isso deve pegar mal! Seria realmente muito bom! Já que não podemos quebrar as mãos do idiota que joga papel de bala no chão, que pelo menos mostremos para ele como fica o centro sem uma legião de pessoas varrendo as ruas o tempo inteiro. Pessoas que, aliás, são normalmente consideradas a última camada da sociedade – quem nunca ouviu quando era criança a máxima “estuda se não vai ser lixeiro quando crescer”?


Neste dia 6 nos afogamos em nossa própria sujeira. Em nosso desenvolvimento podre e desordenado. Em nossa máxima ignorância. Em nossa complacência e passividade.



Afogamo-nos no nosso próprio, com licença da palavra, “Rio de Merda”.

5 de abr. de 2010

Zoológico Humano

Post atrasado quase uma semana... mas antes tarde do que nunca.

Ouvi dizer que essa última edição do BBB foi anunciada como "um verdadeiro zoológico humano" por um Pedro Bial cheio de orgulho. Realmente, temos que admitir essa foi uma definição genial. Antes de qualquer coisa, não, este não é um post falando mal de BBB. Eu não falo mal de Big Brother. Falo mal das novelas do Manuel Carlos - já provamos que existe audiência para coisas menos imbecilizantes, que o digam Roque Santeiro, Vale Tudo, Que Rei Sou Eu e Celebridade. Mas Big Brother não, é exatamente o tipo de programa que a audiência brasileira merece. Não é atoa que somos o único país do mundo com 10 edições do programa, com outras 6 a caminho... Ou seja, os mais xiitas que se preparem: até as olimpíadas, no mínimo, ainda teremos paredão as terças.

Mas então, voltando ao Zoológico. Impressionante como o vencedor dessa edição mostra que esse termo é perfeito. Grande, forte e ignorante... O Dourado poderia ser facilmente confundido com um gorila se fosse negro. Mas como ele é branco e, se eu não me engano, gaúcho, acho que chamá-lo de mico-leão dourado se encaixa melhor - além deu não precisar me preocupar em ser enquadrado legalmente. Preconceituoso, diz em rede nacional que só homosexuais pegam AIDS e ainda fala de “Orgulho Hetero” (se todos os heteros fossem assim, eu teria é vergonha... enfim...). Mas tudo bem, né! Ele tem um bom coração... Acredito piamente nisso. E o Brasil todo também. Afinal pagaram para deixá-lo um milhão e meio mais rico, ao invés da dentista gostosa e sem sal e do falso pobre carioca.


Estamos realmente cercados de tipos incríveis... Será que o Bial já pensava nisso quando assistia o muro de Berlim cair? Continuando dentro da casa mais vigiada do Brasil, tínhamos também animais mais vaidosos... O imponente pavão, e a saltitante gazela "representando" duas faces dos homossexuais brasileiros. Acho que a idéia é que esses dois virassem "símbolos". Existe certo serviço prestado à sociedade quando você mostra que gays são pessoas normais, igualzinho as outras, as vezes legais, as vezes chatos para caramba. E acho que foi por isso que a história de símbolo não deu muito certo... Pessoas normais não são interessantes. Assim como essa coisa de mulher fruta já está meio passada.


Isso me lembra que de outro serviço social que o BBB presta a sociedade: uma série de capas de Playboy, algumas com a qualidade duvidosa, para entreter a garotada. Enfim, nada disso é interessante o suficiente. O projeto de "neo-nazista" encanta mais as massas! Sucesso absoluto entre os adolescentes! Realmente um mico. Um micão.


Para completar essa célebre galeria, não podia deixar de faltar um quadrúpede. Importante animal de carga, que carrega o peso de toda essa ignorância. O escolhido nesse caso é o tristonho burro. E como não também não poderia deixar de ser, esse papel fica, é claro, conosco, o povo brasileiro, que assiste apenas o que merece.

Em um país onde 95% dos lares têm televisão - para que geladeira quando nem sempre se tem o que colocar dentro, enquanto a televisão tem sempre um suplemento infinito de lixo ao alcance do controle remoto? - alguém poderia esperar algo diferente?

1 de abr. de 2010

Incoerência e irresponsabilidade

É muito interessante que num país que clama por "responsabilidade ambiental"; "responsabilidade ética"; "responsabilidade política"; "responsabilidade cívica", etc, etc, etc, todos estes clamores sejam diametralmente opostos ao comportamento prático. Sabemos que o cinismo esquizo da população chegou ao extremo quando vemos frases de evocação como "seja gentil", "gentileza gera gentileza" (numa evocação ao profeta doidinho que adorava dar flores com sorrisos ali, no centro do RJ, pertinho da rodoviária), "se beber não dirija", entre outras, inscritas em cada esquina. É o cúmulo do absurdo que algumas iniciativas - públicas ou não - sintam-se na necessidade de expressar em palavras garrafais o que deveria ser senso comum rasteiro de cada indivíduo.

Mas é sob esse manto que vivemos. Uma vida absorta em pouco pensamento de si e repleta de novos mesmos que anestesiam. O pouco pensamento de si traz, a reboque, o pouco critério, o que gera a pouca coerência em atos e atitudes.

Não gosto de BBB, não suporto BBBs e, ao contrário do Jesse, já foi a época em que passei tempo vendo isso. Mas uma coisa é emblemática: quando o ganhador é um individuo cuja simples tática, ao longo do jogo, é a de tentar ser minimamente coerente e apontar as incoerências gritantes da quase unanimidade restante, percebe-se que algo vai de mal no reino da Dinamarca.

Quando um programa de TV, que reflete os gostos, expectativas e vontades de uma massa populacional tradicionalmente menos culta, começa a partir do pressuposto de que o caminho da vitória é o caminho da coerência, isso me parece ser um alerta vermelho, laranja, amarelo (e todas as demais cores do arco-iris) de que a incoerência em atitudes e gestos grassa tão soltamente, tão levianamente, que a necessidade de sua existência só não passa a ser realmente desejada em situações máximas de pobreza e miséria - e aí, venhamos e convenhamos, quando alguém está sob estas condições, não pode ter sequer consciência de si já que a luta pela sobrevivência é argumento mais que contundente e abona quase qualquer falha.

Ora, notar que um povo, em sua quase totalidade, clama por coerência em gestos e atitudes é alarmante, pois se falta coerência ao indivíduo, o que mais pode-lhe restar? A coerência está na base de qualquer discurso; um discurso incoerente é mero aspergir nonsense de palavras. E coerência não é dom, não é habilidade inata (aliás, quase nada o é, no campo discursivo), é habilidade que se cria com a educação e se põe em prática com o uso. Se há incoerência generalizada, acreditamos que haja uma deficiência generalizada no modo como a população é educada. Não pretendo invadir mais esta seara, até porque não me é familiar, mas se continuarmos nesse ritmo, em breve teremos uma população de pessoas que não precisarão de bebida ou qualquer outro tipo de droga para esquecerem-se de sua coerência.

Da mesma maneira, responsabilidade é, acima de tudo, uma questão de coerência. Não podemos tomar algo para nós, ou assumir encargos sobre certas coisas, se não nos dedicarmos a velar por aquilo constantemente. Por outro lado, somente sendo incoerentes, poderemos nos responsabilizar por algo e nos "esquecermos" de tal responsabilidade em um ou outro momento, pois a Irresponsabilidade, assim como sua mãe, a Incoerência, fica muito feliz quando encontra a fragmentariedade. A diferença é que, enquanto a Incoerência é fragmentariedade discursiva, a irresponsabilidade é fragmentariedade de ato. O ato nada mais é que um outro gesto, e gestos também podem ser discurso.

A Incoerência, assim, é uma mater geradora muito generosa. Ela nos dá a solidão compartilhada de casais que se falam sem se entenderem; nos dá condutas políticas justificadamente tortuosas; nos dá sonhos de criança em uma população de velhos; e nos dá a Irresponsabilidade.


Bom, falemos um pouco dessa filhinha da Incoerência, a Irresponsabilidade. Ela existe em duas vertentes que são interdependentes: a irresponsabilidade de si, e a irresponsabilidade no outro.

A irresponsabilidade de si pode ser tida como um problema simples de gerenciamento de tempo - o tempo para si mesmo não é cronológico, pode durar um simples segundo, mas é o segundo em que o indivíduo simplesmente põe a mão na consciência. Quem é irresponsável sobre si mesmo sequer consegue arranjar um tempinho pra sentar quieto e pensar um pouco sobre si, com detimento, tentando se analisar e apontar em si erros e acertos. Não é pra menos que os irresponsáveis de si muitas vezes são amorais: a moralidade só vem com critérios comparativos, a comparação é, essencialmente ato básico reflexivo.

Quando alguém é irresponsável de si, consequentemente será irresponsável do outro. Assumir riscos, em qualquer circunstância, é uma atitude arriscada... Requer pulso e vontade. O irresponsável tem pulso, certamente, tem vontade, mas a vontade, assim como a responsabilidade, requer constância. O Homem só é Vontade de Existir porque se afirma o tempo todo. Sendo assim, ter pulso, exercer o arbítrio e a vontade, é, essencialmente, ter uma atitude de dignidade por si mesmo.

A situação oposta nos mostra a indignidade generalizada, onde não se tem mais coerência, vontade constante e muito menos responsabilidade sobre atos e palavras. Em última instância, como nos aponta Jesse Custer em seu post, atitudes irresponsáveis se caracterizam pelo achismo, pelo julgamento precipitado, pela pouca responsabilidade nas palavras, gestos e ações. Sendo assim, não é assustador encontrar quem se responsabilize por acusações infundadas, muito menos quem as faça. Acusações infundadas e rasas são coisa comum de gente irresponsável, incoerente, e de vontade lassa. E, em último caso, são desprezíveis, pois indignas.

Assumir responsabilidades, ser coerente nos seus discursos, gestos, ações, é dignificar-se. Pois qualquer reafirmação da Vontade é digna, quando feita com consciência e orgulho do estatuto do homem, enquanto ser pensante, coerente e aspirante a si.

E tenho dito.

31 de mar. de 2010

O Grupo Arco-Íris é heterofóbico

No Rio de Janeiro, iniciou-se uma perseguição. Tão feia quanto a perseguição aos gays e lésbicas e simpatizantes, ou seja lá como são afirmados hoje, o Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT , principal representante dos interesses dos homossexuais no Centro-sul do Brasil está em campanha contra o vencedor do BBB10, Marcelo Dourado. Conforme notícia veiculada pela Ego (http://ego.globo.com/), o Grupo acredita que Dourado é homofóbico. Isso mesmo, “acredita”! Sem provas, evidências, ou qualquer atitude que possa contribuir à fé dos participantes. Tem gente que acredita em Deus, tem gente que acredita nos Power Rangers, mas o Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT acredita que o vencedor do BBB10 seja homofóbico.

O grande problema nesse tipo de atitude (dar declarações de acusação a órgãos irresponsáveis de mídia) é que acarreta um dos mais graves problemas de nosso país. A partir de uma simples declaração que, possivelmente não terá maiores consequências, os cidadãos decidem tomar um partido – se você for gay, lésbica, ou simplesmente heterofóbico (como a maioria dos emos e “alternativos”), ficará do lado do Grupo; mas, se você sabe ler, interpretar e não vê em opção sexual mais do que uma razão de gosto, você ficará intrigado com o poder da fé.

Vejamos a argumentação do Grupo: “Dourado teve atitudes machistas e homofóbicas durante todo o jogo, mesmo assim foi aprovado popularmente. É triste. O lado positivo dessa história é que isso prova que ainda temos um país muito homofóbico". Mania de perseguição? Miopia moral? Ainda não me sinto disposto a apontar problemas tão graves pelo simples fato de me faltarem dados suficientes para uma análise completa da questão.

A única coisa que fica – e isso é sério – é a irresponsabilidade do Grupo Arco-Íris de ter fé na atitude homofóbica de Dourado e, ao mesmo tempo, não conseguir apontar nenhum exemplo do que seja realmente uma atitude homofóbica. O que incomoda no rapaz é o fato de ele ser praticamente um bronco, espécie de Rocky Balboa dos trópicos que perdia as batalhas e continuava avançando, não importando os julgamentos daqueles que estavam mais próximos e, ainda por cima, contando com a sorte para ganhar no final da batalha. Alguém viu Rocky 2? Trata-se da mesma questão – um perdedor, repleto de defeitos que interage num local em que, tradicionalmente, um outro grupo seria superior, mas que a conjuntura não permite que o seja.

Sim, estou a falar dos gays. Ainda no campo do BBB, temos o exemplo do completamente anti-ético Jean, vencedor de outro BBB que foi apoiado pelos LGBT e que não foi avaliado ética e moralmente, mas, por conta da heterofobia desses grupos e do descaso dos demais, venceu e ganhou o prêmio. Parabéns, campeões!

Numa atitude inédita neste blog, devemos concordar com Pedro Bial:

 

Continuando a reportagem: “Apesar da afirmação de Dourado, que garante não ser homofóbico e, ao saber que alguns membros de sua torcida teriam feito ataques contra o site do grupo neste fim de semana, se defendeu dizendo que não tinha controle sobre a situação, o grupo não amenizou as críticas ao lutador./"É muito fácil falar que não apoia as atitudes da torcida, mas foi isso que o ajudou a ganhar o prêmio. Isso mostra a identidade que ele construiu. Quem são essas pessoas que apoiam ele? Hoje em dia, socialmente falando, é feio discriminar um gay... É óbvio que ele não ia admitir que tem algum preconceito. Fazer discurso é fácil!"

Agora, vem uma afirmação mais certeira: o Grupo Arco-Íris tem uma representante, no mínimo, imbecil ou desconhecedora do coeficiente de cidadania do mesmo grupo que representa. Preconceito, neste país, é crime, previsto em lei, com julgamento e punição. Além disso, não se pode afirmar que ele concordaria ou não com uma invasão nas praias internéticas, porque ele, tal qual Dicesar, estava numa prisão, por livre e espontânea vontade, para nos divertir. Portanto, essa inferência talvez se relacione à fé dos LGBT de que Dourado seja homofóbico. Fé porque não há provas dessa comportamento e ao mesmo tempo revela que a heterofobia desse Grupo está bem representada em suas declarações. Porém, não podemos ser preconceituosos, não é mesmo? Não sou um criminoso, apenas leio o que está escrito. Nem mais, nem menos.

A melhor parte das declarações, eu deixo para o final. Trata-se do juízo de valor da Miss Gay Brasil 2009, Ava Simões, que afirma: “Não gosto do Dourado porque ele sempre foi muito jogador na casa e eu fiquei chocada quando ele deu aqueles socos no jardim. Parecia um doido. Acredito que, por causa do jogo, ele não foi homofóbico, mas na frente dele eu não passo não. Tenho medo dele! Ele ia puxar minha peruca” (grifos meus).

Vejam o paradoxo: ao mesmo tempo que a Miss afirma que ele não foi homofóbico por conta do jogo (que seria um fator a se considerar), ela emite um julgamento para o comportamento que lhe é imcompreensível (acerca dos murros na grama, num momento de ira) o que levanta a dúvida: seria ela louca por usar uma peruca? Afinal de contas, ela é Miss Gay e não Miss Travesti o que, por definição, são sub-categorias diversas do mundo da homossexualidade.

Sinceramente, não me importo com essa discussão acerca do comportamento de Marcelo Dourado. Se ele morrer amanhã, tanto faz para o autor dessas mal traçadas linhas. Importo-me, porém, com a questão de que essa atitude de fé e julgamento dos representantes de uma categoria que busca aceitação possa gerar uma espécie de caça às bruxas com relação a todos a nossa volta. “Ele é homofóbico!” “Ele é ateu!” “Ele é isso ou aquilo!”

Nesse BBB10, todavia, quem realmente venceu foi o Boninho que pôde fechar contrato e conseguir, mais uma vez, dar um nó na cabeça dos grupos de luta contra a repressão e mostrá-los como repressores do outro.

E tenho dito!!!!