Que 2012 que nada: aqui no Hell’s de Janeiro o mundo acaba um pouquinho a cada dia. Mas neste dia 6 eu realmente pensei em procurar uma arca.
Brincadeiras a parte, chuva forte e alagamento nesta época do ano não é novidade para ninguém. Todo ano somos castigados pelas “águas de março” que levam o verão, que normalmente ninguém aguenta mais, em grande estilo. Tá certo que já estamos em abril e as águas de março não param de cair... e se continuar assim, não vão levar só o verão.
Ok. Parei com as piadas. Agora é sério. Estive pensando enquanto via o noticiário... o Rio de Janeiro fica entre o mar e as montanhas. Alguns lugares são verdadeiras “poças” naturais. A água desce por um lado e o vento as a marés empurram do outro. Ou seja, enche. Mas isso deveria durar minutos e não horas. E não deveria acontecer em cima viadutos...
Vamos culpar as autoridades? Sim, vamos culpar as autoridades. Aqui no Brasil elas sempre têm uma parcela da culpa (normalmente a maior parcela). Mas todas as vezes que eu caminho pelas ruas em noite de coleta de lixo me vem a seguinte conclusão: “Macacos me mordam Batman, como o carioca é porco!”. Impressionante. As pessoas não conseguem ensacar o lixo e colocá-lo de uma forma organizada na porta de suas casas. A sujeira é tão grande em algumas ruas da cidade que dia de lixeiro já virou sinônimo de dia de ratos.
Considerem que se já não bastasse isso, os poucos sacos fechados decentemente muitas vezes são abertos e revirados por moradores de rua que espalham ainda mais o lixo. Como culpá-los? Como você vai explicar para um cara desses, que vive em condições sub-humanas, que depois a chuva levar aquela sujeira para ralo, ele vai ser o primeiro prejudicado quando a água começar a subir? Sim, falta educação. Falta comida, falta um monte de coisas... Mas que as pessoas são porcas, isso elas são! É impressionante como o ser humano tem facilidade de viver na sujeira. Às vezes atitudes mínimas podem melhorar isso.
O impolutissímo prefeito, senhor Eduardo Paes, prometeu deixar o centro da cidade um dia todo sem garis. Infelizmente, como todo bom político, ele não cumpriu a promessa. Em ano de eleição isso deve pegar mal! Seria realmente muito bom! Já que não podemos quebrar as mãos do idiota que joga papel de bala no chão, que pelo menos mostremos para ele como fica o centro sem uma legião de pessoas varrendo as ruas o tempo inteiro. Pessoas que, aliás, são normalmente consideradas a última camada da sociedade – quem nunca ouviu quando era criança a máxima “estuda se não vai ser lixeiro quando crescer”?
Neste dia 6 nos afogamos em nossa própria sujeira. Em nosso desenvolvimento podre e desordenado. Em nossa máxima ignorância. Em nossa complacência e passividade.
Afogamo-nos no nosso próprio, com licença da palavra, “Rio de Merda”.
7 de abr. de 2010
06/04/2010 – O dia em que o Rio parou
5 de abr. de 2010
Zoológico Humano
Post atrasado quase uma semana... mas antes tarde do que nunca.
Ouvi dizer que essa última edição do BBB foi anunciada como "um verdadeiro zoológico humano" por um Pedro Bial cheio de orgulho. Realmente, temos que admitir essa foi uma definição genial. Antes de qualquer coisa, não, este não é um post falando mal de BBB. Eu não falo mal de Big Brother. Falo mal das novelas do Manuel Carlos - já provamos que existe audiência para coisas menos imbecilizantes, que o digam Roque Santeiro, Vale Tudo, Que Rei Sou Eu e Celebridade. Mas Big Brother não, é exatamente o tipo de programa que a audiência brasileira merece. Não é atoa que somos o único país do mundo com 10 edições do programa, com outras 6 a caminho... Ou seja, os mais xiitas que se preparem: até as olimpíadas, no mínimo, ainda teremos paredão as terças.
Mas então, voltando ao Zoológico. Impressionante como o vencedor dessa edição mostra que esse termo é perfeito. Grande, forte e ignorante... O Dourado poderia ser facilmente confundido com um gorila se fosse negro. Mas como ele é branco e, se eu não me engano, gaúcho, acho que chamá-lo de mico-leão dourado se encaixa melhor - além deu não precisar me preocupar em ser enquadrado legalmente. Preconceituoso, diz em rede nacional que só homosexuais pegam AIDS e ainda fala de “Orgulho Hetero” (se todos os heteros fossem assim, eu teria é vergonha... enfim...). Mas tudo bem, né! Ele tem um bom coração... Acredito piamente nisso. E o Brasil todo também. Afinal pagaram para deixá-lo um milhão e meio mais rico, ao invés da dentista gostosa e sem sal e do falso pobre carioca.
Estamos realmente cercados de tipos incríveis... Será que o Bial já pensava nisso quando assistia o muro de Berlim cair? Continuando dentro da casa mais vigiada do Brasil, tínhamos também animais mais vaidosos... O imponente pavão, e a saltitante gazela "representando" duas faces dos homossexuais brasileiros. Acho que a idéia é que esses dois virassem "símbolos". Existe certo serviço prestado à sociedade quando você mostra que gays são pessoas normais, igualzinho as outras, as vezes legais, as vezes chatos para caramba. E acho que foi por isso que a história de símbolo não deu muito certo... Pessoas normais não são interessantes. Assim como essa coisa de mulher fruta já está meio passada.
Isso me lembra que de outro serviço social que o BBB presta a sociedade: uma série de capas de Playboy, algumas com a qualidade duvidosa, para entreter a garotada. Enfim,
nada disso é interessante o suficiente. O projeto de "neo-nazista" encanta mais as massas! Sucesso absoluto entre os adolescentes! Realmente um mico. Um micão.
Para completar essa célebre galeria, não podia deixar de faltar um quadrúpede. Importante animal de carga, que carrega o peso de toda essa ignorância. O escolhido nesse caso é o tristonho burro. E como não também não poderia deixar de ser, esse papel fica, é claro, conosco, o povo brasileiro, que assiste apenas o que merece.
Em um país onde 95% dos lares têm televisão - para que geladeira quando nem sempre se tem o que colocar dentro, enquanto a televisão tem sempre um suplemento infinito de lixo ao alcance do controle remoto? - alguém poderia esperar algo diferente?
1 de abr. de 2010
Incoerência e irresponsabilidade
Mas é sob esse manto que vivemos. Uma vida absorta em pouco pensamento de si e repleta de novos mesmos que anestesiam. O pouco pensamento de si traz, a reboque, o pouco critério, o que gera a pouca coerência em atos e atitudes.
Não gosto de BBB, não suporto BBBs e, ao contrário do Jesse, já foi a época em que passei tempo vendo isso. Mas uma coisa é emblemática: quando o ganhador é um individuo cuja simples tática, ao longo do jogo, é a de tentar ser minimamente coerente e apontar as incoerências gritantes da quase unanimidade restante, percebe-se que algo vai de mal no reino da Dinamarca.
Quando um programa de TV, que reflete os gostos, expectativas e vontades de uma massa populacional tradicionalmente menos culta, começa a partir do pressuposto de que o caminho da vitória é o caminho da coerência, isso me parece ser um alerta vermelho, laranja, amarelo (e todas as demais cores do arco-iris) de que a incoerência em atitudes e gestos grassa tão soltamente, tão levianamente, que a necessidade de sua existência só não passa a ser realmente desejada em situações máximas de pobreza e miséria - e aí, venhamos e convenhamos, quando alguém está sob estas condições, não pode ter sequer consciência de si já que a luta pela sobrevivência é argumento mais que contundente e abona quase qualquer falha.
Ora, notar que um povo, em sua quase totalidade, clama por coerência em gestos e atitudes é alarmante, pois se falta coerência ao indivíduo, o que mais pode-lhe restar? A coerência está na base de qualquer discurso; um discurso incoerente é mero aspergir nonsense de palavras. E coerência não é dom, não é habilidade inata (aliás, quase nada o é, no campo discursivo), é habilidade que se cria com a educação e se põe em prática com o uso. Se há incoerência generalizada, acreditamos que haja uma deficiência generalizada no modo como a população é educada. Não pretendo invadir mais esta seara, até porque não me é familiar, mas se continuarmos nesse ritmo, em breve teremos uma população de pessoas que não precisarão de bebida ou qualquer outro tipo de droga para esquecerem-se de sua coerência.
Da mesma maneira, responsabilidade é, acima de tudo, uma questão de coerência. Não podemos tomar algo para nós, ou assumir encargos sobre certas coisas, se não nos dedicarmos a velar por aquilo constantemente. Por outro lado, somente sendo incoerentes, poderemos nos responsabilizar por algo e nos "esquecermos" de tal responsabilidade em um ou outro momento, pois a Irresponsabilidade, assim como sua mãe, a Incoerência, fica muito feliz quando encontra a fragmentariedade. A diferença é que, enquanto a Incoerência é fragmentariedade discursiva, a irresponsabilidade é fragmentariedade de ato. O ato nada mais é que um outro gesto, e gestos também podem ser discurso.
A Incoerência, assim, é uma mater geradora muito generosa. Ela nos dá a solidão compartilhada de casais que se falam sem se entenderem; nos dá condutas políticas justificadamente tortuosas; nos dá sonhos de criança em uma população de velhos; e nos dá a Irresponsabilidade.
Bom, falemos um pouco dessa filhinha da Incoerência, a Irresponsabilidade. Ela existe em duas vertentes que são interdependentes: a irresponsabilidade de si, e a irresponsabilidade no outro.
A irresponsabilidade de si pode ser tida como um problema simples de gerenciamento de tempo - o tempo para si mesmo não é cronológico, pode durar um simples segundo, mas é o segundo em que o indivíduo simplesmente põe a mão na consciência. Quem é irresponsável sobre si mesmo sequer consegue arranjar um tempinho pra sentar quieto e pensar um pouco sobre si, com detimento, tentando se analisar e apontar em si erros e acertos. Não é pra menos que os irresponsáveis de si muitas vezes são amorais: a moralidade só vem com critérios comparativos, a comparação é, essencialmente ato básico reflexivo.
Quando alguém é irresponsável de si, consequentemente será irresponsável do outro. Assumir riscos, em qualquer circunstância, é uma atitude arriscada... Requer pulso e vontade. O irresponsável tem pulso, certamente, tem vontade, mas a vontade, assim como a responsabilidade, requer constância. O Homem só é Vontade de Existir porque se afirma o tempo todo. Sendo assim, ter pulso, exercer o arbítrio e a vontade, é, essencialmente, ter uma atitude de dignidade por si mesmo.
A situação oposta nos mostra a indignidade generalizada, onde não se tem mais coerência, vontade constante e muito menos responsabilidade sobre atos e palavras. Em última instância, como nos aponta Jesse Custer em seu post, atitudes irresponsáveis se caracterizam pelo achismo, pelo julgamento precipitado, pela pouca responsabilidade nas palavras, gestos e ações. Sendo assim, não é assustador encontrar quem se responsabilize por acusações infundadas, muito menos quem as faça. Acusações infundadas e rasas são coisa comum de gente irresponsável, incoerente, e de vontade lassa. E, em último caso, são desprezíveis, pois indignas.
Assumir responsabilidades, ser coerente nos seus discursos, gestos, ações, é dignificar-se. Pois qualquer reafirmação da Vontade é digna, quando feita com consciência e orgulho do estatuto do homem, enquanto ser pensante, coerente e aspirante a si.
E tenho dito.