23 de mai. de 2010

"De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."

jose-saramagoPara quem não lembra o título deste artigo é parte da famosa - ou seria melhor dizer, infame? - declaração de José Saramago, prêmio Nobel de Literatura, sobre o Twitter em meados de 2009 ao jornal O Globo. Desde a primeira vez que ouvi essa frase me identifiquei profundamente. Na verdade, acho que seria mais apropriado dizer que identifiquei muitas coisas com essa frase.

A economia parece ser a regra de ouro na sociedade moderna. Economia de dinheiro, economia de espaço e, principalmente, a economia de tempo. Nesse ponto que entendo como os 140 caracteres do micro-blog se comunicam com os grunhidos.

No último século, fomos encolhendo para caber em espaços de 24 horas cada vez  menores. Para sobreviver nos dias de hoje, precisamos de cada segundo, de cada instante. Travamos um luta constante contra os ponteiros do relógio, cada um a sua maneira. Trocamos o modelo de carro (ou pegamos o metrô) para chegar mais cedo ao trabalho. Compramos aquele aparelho de celular que acumula 101 funções diferentes (e normalmente não faz bem nenhuma delas). Mantemo-nos "informados" com as tiras de notícias dos portais da internet porque sentar para ver um telejornal consom e tempo demais - ler um "jornal de verdade" então, nem pensar.

10000relogioAssim, a cada nova tecnologia, ganhamos segundos e com isso, paralelamente, deixamos a sociedade moderna mais veloz. O próprio advento da migração dos espaços sociais para a internet é um reflexo disso. Cada vez mais as pessoas encontram-se pelos programas de Mensagens instantâneas e sites de relacionamentos, diretamente do conforto de seus lares, e menos em bares ou locais públicos.

Lutamos constantemente para conquistar instante após instante, sempre empenhados na luta por novos clicks, segundos fugazes, mas que pautam como os riscos do relógio, o ritmo de nossas vidas.

Estamos na era dos livros curtos. Dos filmes curtos. Neste momento, você leitor, trata-se de uma exceção à regra: este próprio artigo, para os padrões da web e dos blogs, trata-se  de um texto longo, com mais de três parágrafos.

E assim, nesta brincadeira sem fim, apanha a arte e a criatividade. Não que não exista um mérito na capacidade de síntese. Existe, um mérito enorme. Alguns gêneros literários, como os roteiros de cinema e os haicais - aqui, opto propositalmente por considerar o roteiro como um gênero literário - tem suas bases fixadas exatamente no esforço de se dizer muito com pouco. Só que a síntese pela síntese não significa nada.

relogioO problema está quando isso se torna uma algema. Ou seja, entendo que o comentário do bom e velho Saramago, não está para o Twitter e sim para a epidemia de pessoas sedentas por 140 caracteres. Dos diários escritos todo dia com carinho e esmero, fomos para os blogs. Dos blogs fomos para o Twitter. E agora, para onde vamos? O quanto mais vamos encolher?

Ao que parece, depois de alcançarmos o topo, regredimos. Isso aconteceu em várias épocas, nos vários níveis da civilização. De pouco em pouco, estamos prostituindo o texto a serviço da mediocridade.

Não é segredo que atualmente a arte que vende é aquela feita para os que têm preguiça de pensar. Fato que às vezes é maravilhoso - além de ser de suma importância - descansar o cérebro do fluxo de informações constantes dos nossos dias em uma coisa simples. Mas em desmedida esse é um tiro que sai pela culatra. E assim caímos na armadilha das febres da internet, dos fenômenos instantâneos.

twitterO Twitter é o atestado de uma sociedade repleta de pessoas desesperadas por contato, por comunicação, por uma fagulha sequer de calor humano. Comprimidos,  esmagados por si próprios, entregam-se ao econômico mundo do micro-blog.

Qualquer forma de comunicação e interação entre humanos é válida em uma sociedade de ouriços. Mas o que fazer quando nos tornamos escravos, vítimas dos mesmos artifícios que usamos para burlar o tempo, ou melhor, a falta dele?

"Os tais 140 caracteres refletem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."

O que eu temo é que Saramago realmente tenha razão. Pois vejo uma sociedade cada vez mais reduzida em significados, caminhado para um assustador silêncio existencial.

Um comentário:

Débora & Paul disse...

É interessante notar como foi grande a luta pelo direito de expressão de idéias e, no entanto, o movimento atual é de síntese comunicativa - ou comunicação sintética, se preferir. Após longa batalha por espaço para se expressar, temos as ferramentas para tanto (tanto através do meio oral quanto do escrito), ferramentas essas (como os blogs) que possuem um alcance praticamente mundial, e, no entanto, temos nos resumido a pouco mais de 100 caracteres. Mesmo que alguns fujam a regra, fato é que a as pessoas preferem ler e escrever textos curtos. Seria reflexo de falta do que falar, de desinteresse pela leitura (seja ela qual for) ou simplesmente do acelerado ritmo de vida que nos impomos?
Acho que a resposta é o somatório das três hipóteses.
As pessoas hoje em dia não são estimuladas a refletir, a analisar criticar os dados, a formular suas próprias idéias sobre questões que atravessam sua vida. Daí, escrever mais de 140 caracteres sobre elas fica realmente complicado. Um "Discordo completamente da teoria da ‘manipulação da palavra’ porque acho que a palavra não é manipulada." não é síntese, é tudo o que se tem a dizer. Argumentos são inexistentes, pois argumentos se fazem de idéias e idéias são elementos estranhos e desnecessários - o lema hoje é diversão, diversão, diversão. Diversão sem limites, viver para se divertir, se divertir até morrer.
Leitura grande (densa) para quê? Na cultura do superficial, manter-se superficialmente informado basta para qualquer fim. Afinal, não há tempo para perder se aprofundando em assuntos que daqui a dois minutos se tornaram ultrapassados. É o estilo de vida da hipermodernidade: a afirmação constante do vazio e do efêmero. Os 140 caracteres servem bem para esse propósito.
Porém, o que disse até aqui só se aplica a textos de reflexões críticas e há outro segmento relevante de textos de microblogs: os recados pessoais para todos da sua lista (conhecidos, ex-conhecidos e desconhecidos). O que querem dizer os clássicos "to indo pra a praia - posto 9. Quem quiser, apareça.", "Falta do q fazer, alguma sugestão?", "Lost: mt foda!!!!"?
Em certa medida, esses textinhos podem auxiliar a comunicação e a proximidade entre as pessoas, contanto que elas consigam ultrapassar os limite desses textinhos e chegar ao mundo real. É necessário distinguir a busca virtual por amizades, contatos, dos contatos e amizades mantidos com a ajuda do mundo virtual. Elas podem se mostrar da mesma forma, mas em sua origem são bem diferentes.
Estamos mais solitários? É uma discussão com muitas vertentes para os limites desse quadradinho de comentário. Porém é fato que os avanços tecnológicos encurtaram as distâncias e, no entanto, temos cada vez menos tempo para fazer aquela ligação ou encontrar com aquele amigo. Mas aí é uma questão de escolha individual das prioridades. E aí caímos em outra temática muito relevante e contemporânea: esquecemos que temos escolha?
Parece que somos tão bem adestrados a aceitar o que nos impõem, inclusive referente ao estilo de vida, que não cogitamos outra forma de existência que não seja a padronizada. “Luta contra o tempo” é uma forma de viver, que podemos exercer ou não, de acordo com as nossas próprias escolhas. Não somos predestinados a fazer tudo ao mesmo tempo, tampouco a nos resumir a 140 caracteres. Mesmo que todos estejam descendo até o grunhido, podemos fazer diferente – não que seja uma tarefa fácil, mas certamente é possível.