30 de mai. de 2010

Em defesa do rei

Roberto Carlos - DiscografiaAntes de tudo, não se engane. Este não é um post sobre música. Tão pouco uma manifestação de tietagem de qualquer espécie. A motivação inicial para esse texto veio logo após uma conversa de mesa de bar – interessante como certas idéias surgem nas mesas de bar, não? – onde pude observar que mesmo entre pessoas aparentemente muito esclarecidas da geração 1980/90, existe um grande preconceito diante da obra de Roberto Carlos. Preconceito no sentido real da palavra: 1. Ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial. 2. Opinião desfavorável que não é baseada em dados objetivos.  (fonte: Dicionário Priberam)

Temos que começar admitindo que a forma como a imagem desse artista aparece na mídia tem se tornado meio cansativa para as novas gerações. Em 2009, por exemplo, fomos bombardeados por uma série de especiais comemorando seus 50 anos de carreira. E, convenhamos, esse tipo de coisa realmente testa a paciência de qualquer expectador... Mesmo assim, Roberto Carlos, ou melhor, o Rei Roberto Carlos – afinal, como falar dele sem utilizar o já consagrado título de nobreza que o acompanha desde que eu me entendo por gente? ­–, ainda mantêm seus tradicionais especiais de finais de ano com uma boa audiência garantida por uma legião de fãs que o acompanham desde os tempos da Jovem Guarda.

roberto_carlos_cantor1Aqui eu faço um pequeno parêntese. Não é curioso como o ser humano gosta de atribuir essa figura despótica e absoluta a determinadas pessoas? O Rei do Pop, O Rei do Futebol, A Rainha dos Baixinhos, A Rainha do Bumbum – e vou parar por aí com os exemplos antes que o nível deste post decaia demais e precise ser censurado. Acho que no fundo precisamos de uma figura de poder sobre nós. Precisamos criar um ícone, incontestável e impoluto... só para depois ridicularizá-lo. Afinal, depois da Bastilha o destino de todos os reis e rainhas é o mesmo: perder a cabeça.

Em parte é este o “fenômeno”, se é que posso chamar assim, que motiva este texto. Tenho percebido, principalmente nestas gerações mais jovens, certo demérito com relação à figura de Roberto Carlos. Não estou me referindo a uma questão de gosto e sim a um aspecto geral. Tenho a impressã o de que a intelectualidade formou uma visão um tanto deturpada e obscurecida de sua música desde a época da ditadura militar.

di00757Um dos pontos que mais me incomoda é a comparação com Chico Buarque, como se este e aquele fosse respectivamente o que a de melhor e pior na produção artística brasileira dos anos 1960/70. Nessa época o Brasil vivia um dos períodos mais vergonhosos da nossa história e foi justamente por sua apatia perante a ditadura militar  que a música de Roberto Carlos passou a ser considerada nessa época por muitos intelectuais como  pobre e alienante.

Enquanto DOPS fechava e censurava os shows de Chico, a Polícia Militar fazia segurança nas apresentações da Jovem Guarda, movimento encabeçado por Roberto. É claro que esse não envolvimento era o tipo de coisa que aqueles que lutaram ativamente contra o regime não iriam perdoar.

O tom político da obra de Chico Buarque obviamente contrasta com as canções repletas de temas, primeiro juvenis, depois românticos, de Roberto Carlos. Os críticos, obviamente, acusavam sua música de falta de engajamento – os anos 1960 e 1970 foram períodos muito fortes da arte engajada, não apenas na música, mas no teatro e cinema.

wilde-oscarEstes argumentos, porém, levam-me a uma série de questionamentos. O primeiro deles é  uma tecla que eu sempre bato: a arte precisa mesmo ser engajada para ter algum valor? Não deveríamos ser capazes de apreciá-la e julgá-la apenas pelo seu valor estético e não pelo seu contexto político-social? O bom Oscar Wilde não dizia, pela boca do cínico Lord Henry Wotton, que “a boa arte é aquela que é completamente inútil”?

Considerando que Roberto Carlos fosse contra a ditadura – o que não é exatamente relevante aqui. Em, digamos setenta milhões de brasileiros, quantos por cento da população estavam, de fato, se importando para quem  estava no governo? ­–, por viver em um país nesta situação, ele teria a obrigação de colocar sua música a serviço democracia? Seguindo essa mesma lógica, um escritor africano só poderia escrever sobre a miséria e o sofrimento do seu continente, sem nunca poder se aventurar por outros temas, como por exemplo, uma narrativa de ficção científica ou seja lá o que for? Esse é o papel que delegamos a arte? Seria esta então uma forma de expressão ou um meio de comunicação?

Particularmente acho uma besteira que arte precise ter consciência. Cobrar temas específicos de artistas ou estabelecer assuntos ética ou moralmente proibidos é tão castrador quanto à censura institucional. Deveríamos, segundo a este ponto de vista, queimar todas as cópias de Lolita, de Nabucov ou toda a extensa obra do pervertido e talentoso Marquês de Sade? Já disse e repito: arte não pode ter lugares proibidos. Isso é amordaçá-la. O artista tem direito sim, aos tabus, aos temas eticamente questionáveis e, porque não, a futilidade. Não vejo nada de errado na futilidade.

Sem sair do assunto, o segundo ponto normalmente ignorado é o contexto pessoal de cada um nesses casos. No exemplo aqui discutido, a diferença é bastante significativa para ser simplesmente deixada de lado.

chicoNão quero de maneira nenhuma desmerecer a contribuição que Chico Buarque deu para a redemocratização do Brasil. Nem tão pouco ignorar toda a opressão que ele certamente passou nessa época. Mas há de se convir que é ligeiramente mais fácil falar contra o regime quando se é filho de Sérgio Buarque de Holanda...

Neste caso sou obrigado a considerar o papel que o berço tem na formação dos indivíduos. Enquanto Chico era um Buarque de Holanda, nascido no Rio de Janeiro, criado em meio a viagens pela Europa, em contato com toda a elite cultual da época, Roberto era da pequena Cachoeiro de Itapemirim dos anos 1940, filho de um relojoeiro e de uma  costureira.

É claro que os ideais de liberdade de expressão e democracia estavam muitos mais ligados a realidade do infante Francisco do que do pequeno Roberto. Não é segredo que o movimento contra a ditadura durante muito tempo se limitou a uma elite cultural que tinha acesso a toda uma educação e formação vindas do estrangeiro. É natural então que a arte de Chico na maturidade refletisse essas vivências, esse desejo cultivado ao longo de uma vida.

Igualmente natural que os temas juvenis, em um primeiro momento, e os dramas e conflitos românticos, em um segundo ocupassem um lugar de destaque para alguém com uma formação mais simples.

maquina_mortifera_1987_posterOutra acusação muito comum é a falta a de originalidade, com letras bregas e bobas. Acho que isso é parcialmente verdade, mas não da maneira que é apresentada por aí. Vejamos... responda rápido: o que E o Vento Levou..., Casablanca, Máquina Mortífera e Rock, o Lutador têm em comum? Todas essas histórias, sob uma perspectiva atual, são clichês. Se alguém tentar um roteiro com alguma dessas fórmulas puras hoje em dia, sem  nenhuma inovação, pode ter certeza de que ele vai terminar dentro de uma gaveta. Mas em sã consciência, algum crítico atual poderia questionar o valor de algum destes filmes? Certamente não. Isso porque eles vieram primeiro. Cada um desses longas foram obras delineadoras. A mesma coisa acontece na música. Então não custa nada lembrar, antes de classificar, etiquetar e descartar Roberto Carlos junto com toda uma gama de cantores românticos, que ele foi um pioneiro.

rcA sua primeira fase, a do Iê, iê, iê, tem, acho que todos vão concordar, muita influencia de artistas como Elvis Presley, Little Richard, Chuck Berry e finalmente, dos ascendentes Beatles – o que certamente Roberto ouvia na juventude. Ok, não vamos fazer comparações, mas vamos admitir ao menos que ele foi um dos responsáveis por abrir caminho para esse gênero musical no Brasil. A semelhança é tão óbvia que os filmes que gravou no período da Jovem Guarda, como Roberto Carlos Em Ritmo de Aventura, Roberto Carlos e O Diamante Cor de Rosa, são os filmes do Elvis, ou mesmo da primeira fase dos Beatles, cuspidos e escarrados. Toscos toda vida... claro.

Original realmente ele não foi, mas que atire a primeira pedra aquele que não admite nenhuma influência do estrangeiro. E as letras, o estilo deste primeiro momento, seguiam uma vertente lá de fora do rock da época que é idolatrada por muitos até hoje. Os mesmos que fazem bico só de ouvir o nome Roberto Carlos.

Algumas das letras de sua fase mais madura – depois do Iê, iê, iê e antes fase mulheres de óculos, mulheres quarenta, mulheres pernetas etc – não deixam a desejar em nada se comparadas a algumas composições de cunho mais romântico da bossa nova tidas como “música de qualidade da elite intelectual”. Muitas compostas pelo próprio Roberto sozinho, sem parcerias.

Em minha opinião essa é uma das fases mais injustiçadas do Rei. Este estigma de cantor das massas é difícil de superar e bloqueia totalmente a apreciação de algumas pessoas que se contentam com a simplificação na equação “popular igual à ruim”. Isso nem sempre é verdade – que o digam os grandes mestres do samba –, não tem pecado nenhum em fazer arte que atinja a todos. Diga-se de passagem, fazer isso sem perder qualidade, é sim, um desafio. E isto, sinceramente, acho que Roberto Carlos conseguiu muito bem.

Consigo pensar em poucas declarações de amor tão belas e profundas quanto Você não sabe, assim como em poucas músicas que representem tão bem o sentimento de perda e desolação quanto As flores do jardim da nossa casa. E o que dizer de Cavalgada, com sua letra repleta de paixão e erotismo? Até mesmo “clássicos de carro de som” como Detalhes: alguma vez você, leitor, parou realmente para prestar atenção nos detalhes dessa letra? De como o Eu lírico da canção recorda um grande amor com toda a ternura que alguém que levou um pé na bunda é capaz de nutrir? Detalhes é a palavra final no quesito dor de cotovelo abordada de uma forma no mínimo criativa: ao invés de simplesmente lamentar-se ele afirma como nunca mais será esquecido, alimentando sua própria auto-estima. Preciso dizer mais?

Gosto é uma questão subjetiva. Mas argumentos são argumentos. Você pode dizer que não gosta de cereja porque acha muito doce, natural. Agora não dá para dizer que morangos são ruins porque jacaré não come alpiste. Quer dizer, poder você até pode, vivemos em um país livre – a despeito das tentativas do PT ­–, mas não espera que alguém lhe leve a sério!

chico-buarquePara terminar gostaria de lembrar que sou apenas um pobre alienista e não um músico. Então, meu objetivo, como já foi dito, não é foi falar de música de forma técnica. Disso seria incapaz. Só o que fiz foi rebater com argumentos plausíveis certos lugares comuns que se instalam a respeito da arte. Falei de arte. Falar de arte eu posso. Todo mundo pode. Mas para aqueles que ainda querem ouvir um músico falando do assunto, dou a palavra para ninguém menos que o próprio Chico Buarque através de um trecho da letra de Paratodos, composição clássica do mestre dos olhos azuis em homenagem à Tom Jobim: Viva Erasmo, Ben, Roberto / Gil e Hermeto, palmas para / Todos os instrumentistas.

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