19 de jun. de 2010

A Língua Portuguesa está órfã

Aos 87 anos, morre o autor Jóse SaramagoFoi com esta frase que o apresentador Serginho Groisman definiu em um tweet – que ironia...– a triste perda que nós sofremos hoje: às 12h30 (horário local), morreu José Saramago, em sua residência de Lanzarote, aos 87 anos de idade, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença.

A notícia matinal pegou-me de surpresa. Percebi que, talvez por ingenuidade ou egoísmo, achava que Saramago escreveria para sempre. Que eu sempre estaria esperando seu próximo livro ou suas próximas considerações sobre o mundo atual. Obviamente, estava  enganado. Há morte chega mesmo para os gênios, os sábios. Mesmo para os imortais.

Saranago na cerimônia do NobelVencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1998, acho incontestável que a obra de Saramago ajudou a definir a chamada literatura do século XX. Dotados de sarcasmo e de um humor ácido, aliado a uma sensibilidade ilimitada, seus livros eram muitas vezes de uma genialidade polêmica.

Foi através de A balsa de Pedra que entendi o sonho português. Do Memorial do Convento que entendi sua melancolia. Com História do Cerco de Lisboa aprendi sobre mim mesmo.  Já o Ensaio Sobre a Cegueira falou-me do ser humano. E foi assim, livro após livro, que este português descrito pelo New York Times como “austero e seco” foi me cativando com seus textos.

Ateu convicto e profundamente anti-religioso, Saramago foi também um homem crítico. Denunciou injustiças. Não tinha medo de falar de política, de escrever e de dizer o que pensava. Comprou brigas pessoas e entidades importantes como o Vaticano, o político italiano Silvio Berlusconi e até com o estado de Israel. Talvez seja por isso que de todos os principais jornais de língua anglo-saxonica, o Times tenha sido o único que deu o devido destaque a sua morte, na primeira página.

Em 2008 permitiu que seu livro Ensaio sobre a cegueira fosse levado às telas pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles. Sua única exigência? Que a produção não incluísse nenhuma referência de lugar na história. Queria que o filme fosse o mais universal possível. Conseguiu.

Saramago e sua esposa, Pilar del Río. Recentemente parti de uma de suas declarações ao escrever um post aqui para a Perene Discussão. Lembrar disso faz com que eu reflita um pouco sobre o que disse no início deste texto sobre a perda de Saramago. Na verdade, estava novamente enganado. Saramago só mudou de forma. Como diria Alotysio Ullmann sobre a morte do filósofo romano Marco Aurélio: deixou a vida para juntar-se ao cosmos. Sua obra continua imortal.

Encerro aqui com o último texto postado em seu blog, Outros Cadernos de Saramago – que não poderia ser uma despedida mais adequada:

"Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma"

7 de jun. de 2010

Vida Sintética, Religião e Bioética

celulas-modificadas-vida-20100520195509No dia 20 de maio uma notícia sacudiu a comunidade cientifica: uma equipe de 27 pesquisadores, liderados pelo Dr. J. Craig Venter, anunciou oficialmente a criação do primeiro ser vivo feito com DNA 100% sintético.

Pareceu confuso? Então vamos usar outras palavras: Venter conseguiu desenvolver em laboratório a primeira célula de bactéria sintética e auto-replicante – capaz de se reproduzir sozinha. O genoma foi inteiramente projetado em um computador e desenvolvido por meio de processos químicos, sem nenhum traço de DNA natural. Isso foi possível usando uma célula oca, ou seja, sem material genético, na qual os cientistas aplicaram o novo DNA.

Dr. J. Craig Venter Os ramos de possibilidades que esta experiência abre são simplesmente incontáveis. Os mais empolgados dizem que, pela primeira vez na história da humanidade, o homem foi capaz de criar vida autentica artificialmente. Não é como moldar uma criatura em barro e ela sair por aí andando e comendo maçãs, mas dentro dos limites da realidade a experiência de Venter tem um impacto sem precedentes.

Só para se ter uma idéia do que estou falando, através deste novo ramo chamado biologia sintética, dentro de alguns anos será possível criar coisas tão abrangentes como novas fontes alimentares, energia limpa e renovável, bactérias capazes de limpar o CO2 da atmosfera ou de despoluir a água. Tudo isso “apenas” manipulando elementos químicos para se criar um organismo capaz de realizar a tarefa necessária. Não é exagero dizer que seria possível até mesmo, em um futuro ainda indefinido, desenvolver novas formas de vida complexas do zero. Teríamos finalmente tomado as rédeas da criação? Embora se a bactéria criada é ou não “vida pelas mãos do homem” ainda é motivo de muito debate entre os cientistas, é quase que certo que esse será o próximo passo.

Está pergunta certamente tirou o sono do Papa, pois levou o Vaticano rapidamente a se pronunciar sobre o nascimento de Synthia ­– nome dado pelos cientistas a nova bactéria: só deus pode criar vida. Segundo o bispo que deu a declaração, esse tipo de descoberta só será bem vinda se for usada para o bem da humanidade, como fins terapêuticos etc. O que me preocupa é o que uma instituição que condena o uso de preservativos e métodos contraceptivos em pleno século 21 e com uma epidemia de HIV matando milhões de pessoas vê como o bem da humanidade...

synthiaHá quem diga também que a existência de Syntia caí como uma bomba sobre o dogma cristão. Eu diria que a bactéria é, desde Galileu, uma das maiores feridas no orgulho da  Igreja Católica. Primeiro o astrônomo comprova que não somos o centro da criação. Agora, Syntia vem contestar a própria criação. Ao se tirar de deus o monopólio sobre dom da criação, o Gênese fica em xeque: ou admite-se que o homem se iguala a deus ao criar vida ou se considera o fato de que a concepção de vida não é tão extraordinária assim, logo não precisaria ter sido criada por um designer inteligente. Em ambas a religião sai perdendo, mas aposto que o Vaticano vai ficar com a primeira opção e apelar para a boa e velha premissa do “já estava previsto no plano divino, que nos fez assim, capazes de executar tais atos bla, bla, bla...”, como já fez com a clonagem e com a pesquisa de células troco – resumindo, deus criou o homem com esse dom, mas ele não pode usar porque é pecado.

(Agora um parêntese para um comentário mais pessoal: será que desde a Baixa Idade Média alguma outra instituição causou tanto atraso no desenvolvimento da sociedade humana quanto a Igreja Católica Apostólica Romana? Fim do parêntese.)

Saindo das páginas dos livros de estória e entrando para o mundo concreto, temos o caráter evolucionista da questão. Se considerarmos alguns teóricos mais modernos da Biologia Social, porque não admitir que a criação de vida artificial faz parte do processo evolutivo natural da espécie humana tanto quanto o desenvolvimento do ossos ocos e penas nos pássaros? Estaríamos então pré-destinados a concretizar tudo que somos capazes de fazer tanto pela ciência quanto pela religião?

Enquanto isso...

John Sulston Enquanto debatemos a moral, a ética e toda a filosofia inerente da criação de vida artificial, os homens de preto (ou melhor, neste caso, homens de branco, de jaleco) já estão pensando em commodities. O Nobel de Medicina John Sulston já lançou o alerta sobre o perigo de Venter possuir a intenção de patentear a vida artificial. É isso mesmo, patentear.

Faz alguns anos, Venter e Sulston protagonizaram a mesma discussão durante as pesquisas do genoma humano, quando Venter liderava o segmento privado e Sulston o estatal da empreitada. Sulston saiu ganhando quando por ocasião o debate entre setor público e privado terminou quando chegou-se à conclusão de que “ao se tratar do genoma humano, os dados deviam ser de domínio público” – palavras do próprio Nobel.

A preocupação de Sulston é legitima. Se levarmos em conta a abrangência da descoberta, ter todo esse conhec imento restrito a um único nicho, seja uma companhia ou país, é   quase tão grave quanto se, por exemplo, há 30 ou 40 anos toda a tecnologia nuclear do mundo estivesse sob domino americano ou soviético. Isso tanto devido ao potencial bélico – através dessa nova área da ciência prevê-se a criação de armas biológicas perfeitas, com 100% de eficiência, 100% feitas pelo homem – quanto ao terapêutico da descoberta.

dados-021A Teoria dos Jogos, – famosa por ter entre seus principais pesquisadores outro Nobel, Johon Nash, que teve sua biografia levada as telas dos cinemas no filme Uma Mente Brilhante –­, ramo da matemática aplicada usado para examinar desde a concorrência e a cooperação dentro de pequenos grupos de empresas até relações internacionais complexas, afirma que é preciso haver um equilíbrio de entre os competidores para que se tenha uma sociedade com o mínimo de conflitos.

Se consideramos a tendência violenta do ser humano... Bem, melhor deixar isso para um próximo post.