Foi com esta frase que o apresentador Serginho Groisman definiu em um tweet – que ironia...– a triste perda que nós sofremos hoje: às 12h30 (horário local), morreu José Saramago, em sua residência de Lanzarote, aos 87 anos de idade, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença.
A notícia matinal pegou-me de surpresa. Percebi que, talvez por ingenuidade ou egoísmo, achava que Saramago escreveria para sempre. Que eu sempre estaria esperando seu próximo livro ou suas próximas considerações sobre o mundo atual. Obviamente, estava enganado. Há morte chega mesmo para os gênios, os sábios. Mesmo para os imortais.
Vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1998, acho incontestável que a obra de Saramago ajudou a definir a chamada literatura do século XX. Dotados de sarcasmo e de um humor ácido, aliado a uma sensibilidade ilimitada, seus livros eram muitas vezes de uma genialidade polêmica.
Foi através de A balsa de Pedra que entendi o sonho português. Do Memorial do Convento que entendi sua melancolia. Com História do Cerco de Lisboa aprendi sobre mim mesmo. Já o Ensaio Sobre a Cegueira falou-me do ser humano. E foi assim, livro após livro, que este português descrito pelo New York Times como “austero e seco” foi me cativando com seus textos.
Ateu convicto e profundamente anti-religioso, Saramago foi também um homem crítico. Denunciou injustiças. Não tinha medo de falar de política, de escrever e de dizer o que pensava. Comprou brigas pessoas e entidades importantes como o Vaticano, o político italiano Silvio Berlusconi e até com o estado de Israel. Talvez seja por isso que de todos os principais jornais de língua anglo-saxonica, o Times tenha sido o único que deu o devido destaque a sua morte, na primeira página.
Em 2008 permitiu que seu livro Ensaio sobre a cegueira fosse levado às telas pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles. Sua única exigência? Que a produção não incluísse nenhuma referência de lugar na história. Queria que o filme fosse o mais universal possível. Conseguiu.
Recentemente parti de uma de suas declarações ao escrever um post aqui para a Perene Discussão. Lembrar disso faz com que eu reflita um pouco sobre o que disse no início deste texto sobre a perda de Saramago. Na verdade, estava novamente enganado. Saramago só mudou de forma. Como diria Alotysio Ullmann sobre a morte do filósofo romano Marco Aurélio: deixou a vida para juntar-se ao cosmos. Sua obra continua imortal.
Encerro aqui com o último texto postado em seu blog, Outros Cadernos de Saramago – que não poderia ser uma despedida mais adequada:
"Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma"
Um comentário:
Imagine você que três dias antes eu comecei a escrever um post justamente sobre o blog de Saramago. Até Saramago havia se rendido a blogsfera. Blogueiro como nós. Como foi motivador descobrir esse companheiro de peso!
Mas infelizmente este post se perdeu tempo e no espaço: no tempo porque agora já não fala mais do que é, mas sim do que um dia já foi - ou, se preferir, fala somente do que é, do cristalizado como um objeto imutável (injusto com Saramago, não? Tratá-lo como um objeto acabado) - e no espaço porque coincidentemente este post se perdeu no espaço físico do meu HD antigo. :P
Da morte dele ficam seus textos, a nostalgia por um gênio e a esperança que em breve surja outro literário que possa vir a preencher parte do vazio deixado.
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