2 de jul. de 2010

Por favor, deixe-me torcer

0,,35900018,00Algumas cenas ficam marcadas nas nossas cabeças. Antes do primeiro jogo do Brasil, vi uma dessas. Estava saindo do Mergulhão quando aviste aquele mar de camisas verde e amarelas. Ouvia La Tempesta di Mare, sinfonia em ré menor, de Carlo Monsar no rádio e por alguns segundos, tive a sensação que o tempo passou mais devagar e tudo se moveu como música. Uma pequena legião que havia saído do trabalho às 14h indo junta na mesma direção – todos corriam, mas para mim, sob o sol frio daquela tarde, a cena durou uma eternidade.

Havia uma beleza naquela visão, uma beleza naqueles fogos de artifícios e cornetas, naquela turba louca para chegar em frente a um televisor para assistir a estréia do Brasil na Copa da África contra a Coréia do Norte.

img63576bg Nunca, na minha curta vida, vi tantas bandeiras e camisas espalhadas pela cidade. Muitas vezes sou recriminado quando digo que amo a Copa do Mundo. Então eu argumento: bendito seja o evento que une em uma só nota uma nação como Brasil. Mesmo que o grito seja apenas por gols, mesmo assim, bendito seja o futebol, que nos faz gritar juntos.

Mas a verdade é que a globalização tornou esta história de nacionalismo demoder – quase tanto quanto está palavra. É complicado exaltar o nacional quando você é acordado por um despertador feito na China, vai para o trabalho com o ônibus de uma marca alemã, almoça em um restaurante árabe... Esta é a faca de dois gumes da queda das fronteiras: nos aproximamos uns dos outros, mas segundo alguns, perdemos um pouco da nossa identidade. Mas afinal, o que é esta nossa identidade?

BXK138392_cachorra-laila800O que é ser brasileiro? É amar um estado corrupto e falido? Ou nascer nessa terra, viver com esse povo, com essa cultura? Para os que concordam comigo que a segunda opção é mais válida, outra pergunta: o que é mais brasileiro do que futebol? Afinal, somos o país do futebol. Fizemos do futebol o esporte mais brasileiro do mundo.

Então sim, é apenas de quatro em quatro anos que vemos tantas bandeiras nas janelas. É verdade. Mas de quatro em quatro anos o país sente orgulho de si próprio. De quatro em quatro anos nos curamos por um mês do nosso complexo de vira-lata, saímos das quatro patas e provamos que podemos ser um pouco mais.

00341Quando eu olho para o campo o que eu vejo é toda uma nação focada nos pés de onz e pessoas. Não, eles não são doutores, não senhor. Mas são mestres da bola. Não tem diplomas, mas são artistas. Sua tela? O gramado. Ali, o que acontece é mágica e não uma simples glorificação da ignorância como alguns dizem. De pouco me importa os salários astronômicos que eles ganham em seus times. Ali, o que eu vejo são brasileiros. Brasileiros levando o sonho de 190 milhões nas costas – ou melhor nos pés. E qual o problema em sonhar?

chongAlguém lembra, também neste primeiro jogo, de Jong Tae-Se, craque e único atacante da Coréia do Norte, chorando, chorando com uma emoção de dar dó ao ouvir o hino de seu país? Seu país, a Coréia do Norte, um dos regimes mais fechados do mundo, parte do chamado Eixo do Mau. Mais era sua terra. Sua Coréia.

Comovi-me com as cenas dos africanos pelas ruas de Cidade do Cabo após a eliminação  da África do Sul. Não é curioso como nós ­– brasileiros e africanos – somos parecidos na hora de sentir? Sem meio termo.

Acho muito, muito impressionante o momento do hin o. Seja com todos em silêncio ou cantando juntos. É um símbolo incrível. Como de soldados prestes a ir ao campo de batalha. E de uma certa forma, é o que eles são: nossos heróis modernos.

Logosouthafrica2010Mas é preciso que entenda bem, meu senhor: não estou falando de nacionalismo. Copa do Mundo não é nacionalismo. Você pode argumentar que futebol é política. Que futebol é isso, é aquilo outro. Mas eu vou lhe dizer: futebol é paixão. Copa do Muno é paixão. É disso que estou falando. E pobres são aqueles que vivem sem paixão.

É claro que o Mundial de Futebol não acaba com os  problemas. Enquanto torcemos, pessoas ainda passam fome, a violência tira vida inocentes, os nossos políticos continuam a roubar... Mas então, deveríamos parar de torcer? Lamentar ainda mais ajuda a mudar alguma coisa? Muitas vezes os que mais lamentam e mais pedras atiram são os que menos fazem alguma coisa para mudar o país de que tanto se envergonham.

Torcida004O que tem de errado em ver a seleção de seu país jogar? Por favor, deixe-me sofrer! Deixe-me gritar, sim! Deixe-me roer as unhas e fazer promessas descabidas ou gastar dinheiro com superstições juvenis! Permita-me vibrar quando a bola atingir a rede do adversário e saltar com o grito de gol. Vestir minha camisa azul e branca e sair pelas ruas comemorando como se tivéssemos ganho o direito a própria vida. E deixe-me, por favor, derramar minhas lágrimas na derrota. Deixe-me.

Brazil Chile Wcup SoccerEntão você, incapaz de sofrer, me dirá, “Por que tudo isso por futebol”? E eu lhe responderei: “E por que não?” O que tem de errado? Sofremos por tantas outras coisas babais e nem percebemos... O que, entre o céu e a terra, decide quais das nossas lágrimas são válidas? Para mim, pobre são os que não conseguem vibrar, os que não sentem o peito disparar ao soar de um grito de gol. Pobres são aqueles incapazes de sonhar um sonho inocente como este. Triste, sim, são os que não conseguem deixar a amargura de um país cansado de lado por um mês. Porque estes deixam de viver uma das mais belas experiências de ser brasileiro.

E é por isso, meu senhor, que eu lhe peço: deixe-me torcer em paz!

 

P.S.: Hoje, às 11:00, o Brasil enfrenta a Holanda pelas quartas de final. 190 milhões de corações canarinhos estarão olhando para o mesmo objeto esférico, desejando a mesma coisa. Digam-me que não há poesia nisso? Vamos, diga-me!