Algumas cenas ficam marcadas nas nossas cabeças. Antes do primeiro jogo do Brasil, vi uma dessas. Estava saindo do Mergulhão quando aviste aquele mar de camisas verde e amarelas. Ouvia La Tempesta di Mare, sinfonia em ré menor, de Carlo Monsar no rádio e por alguns segundos, tive a sensação que o tempo passou mais devagar e tudo se moveu como música. Uma pequena legião que havia saído do trabalho às 14h indo junta na mesma direção – todos corriam, mas para mim, sob o sol frio daquela tarde, a cena durou uma eternidade.
Havia uma beleza naquela visão, uma beleza naqueles fogos de artifícios e cornetas, naquela turba louca para chegar em frente a um televisor para assistir a estréia do Brasil na Copa da África contra a Coréia do Norte.
Nunca, na minha curta vida, vi tantas bandeiras e camisas espalhadas pela cidade. Muitas vezes sou recriminado quando digo que amo a Copa do Mundo. Então eu argumento: bendito seja o evento que une em uma só nota uma nação como Brasil. Mesmo que o grito seja apenas por gols, mesmo assim, bendito seja o futebol, que nos faz gritar juntos.
Mas a verdade é que a globalização tornou esta história de nacionalismo demoder – quase tanto quanto está palavra. É complicado exaltar o nacional quando você é acordado por um despertador feito na China, vai para o trabalho com o ônibus de uma marca alemã, almoça em um restaurante árabe... Esta é a faca de dois gumes da queda das fronteiras: nos aproximamos uns dos outros, mas segundo alguns, perdemos um pouco da nossa identidade. Mas afinal, o que é esta nossa identidade?
O que é ser brasileiro? É amar um estado corrupto e falido? Ou nascer nessa terra, viver com esse povo, com essa cultura? Para os que concordam comigo que a segunda opção é mais válida, outra pergunta: o que é mais brasileiro do que futebol? Afinal, somos o país do futebol. Fizemos do futebol o esporte mais brasileiro do mundo.
Então sim, é apenas de quatro em quatro anos que vemos tantas bandeiras nas janelas. É verdade. Mas de quatro em quatro anos o país sente orgulho de si próprio. De quatro em quatro anos nos curamos por um mês do nosso complexo de vira-lata, saímos das quatro patas e provamos que podemos ser um pouco mais.
Quando eu olho para o campo o que eu vejo é toda uma nação focada nos pés de onz e pessoas. Não, eles não são doutores, não senhor. Mas são mestres da bola. Não tem diplomas, mas são artistas. Sua tela? O gramado. Ali, o que acontece é mágica e não uma simples glorificação da ignorância como alguns dizem. De pouco me importa os salários astronômicos que eles ganham em seus times. Ali, o que eu vejo são brasileiros. Brasileiros levando o sonho de 190 milhões nas costas – ou melhor nos pés. E qual o problema em sonhar?
Alguém lembra, também neste primeiro jogo, de Jong Tae-Se, craque e único atacante da Coréia do Norte, chorando, chorando com uma emoção de dar dó ao ouvir o hino de seu país? Seu país, a Coréia do Norte, um dos regimes mais fechados do mundo, parte do chamado Eixo do Mau. Mais era sua terra. Sua Coréia.
Comovi-me com as cenas dos africanos pelas ruas de Cidade do Cabo após a eliminação da África do Sul. Não é curioso como nós – brasileiros e africanos – somos parecidos na hora de sentir? Sem meio termo.
Acho muito, muito impressionante o momento do hin o. Seja com todos em silêncio ou cantando juntos. É um símbolo incrível. Como de soldados prestes a ir ao campo de batalha. E de uma certa forma, é o que eles são: nossos heróis modernos.
Mas é preciso que entenda bem, meu senhor: não estou falando de nacionalismo. Copa do Mundo não é nacionalismo. Você pode argumentar que futebol é política. Que futebol é isso, é aquilo outro. Mas eu vou lhe dizer: futebol é paixão. Copa do Muno é paixão. É disso que estou falando. E pobres são aqueles que vivem sem paixão.
É claro que o Mundial de Futebol não acaba com os problemas. Enquanto torcemos, pessoas ainda passam fome, a violência tira vida inocentes, os nossos políticos continuam a roubar... Mas então, deveríamos parar de torcer? Lamentar ainda mais ajuda a mudar alguma coisa? Muitas vezes os que mais lamentam e mais pedras atiram são os que menos fazem alguma coisa para mudar o país de que tanto se envergonham.
O que tem de errado em ver a seleção de seu país jogar? Por favor, deixe-me sofrer! Deixe-me gritar, sim! Deixe-me roer as unhas e fazer promessas descabidas ou gastar dinheiro com superstições juvenis! Permita-me vibrar quando a bola atingir a rede do adversário e saltar com o grito de gol. Vestir minha camisa azul e branca e sair pelas ruas comemorando como se tivéssemos ganho o direito a própria vida. E deixe-me, por favor, derramar minhas lágrimas na derrota. Deixe-me.
Então você, incapaz de sofrer, me dirá, “Por que tudo isso por futebol”? E eu lhe responderei: “E por que não?” O que tem de errado? Sofremos por tantas outras coisas babais e nem percebemos... O que, entre o céu e a terra, decide quais das nossas lágrimas são válidas? Para mim, pobre são os que não conseguem vibrar, os que não sentem o peito disparar ao soar de um grito de gol. Pobres são aqueles incapazes de sonhar um sonho inocente como este. Triste, sim, são os que não conseguem deixar a amargura de um país cansado de lado por um mês. Porque estes deixam de viver uma das mais belas experiências de ser brasileiro.
E é por isso, meu senhor, que eu lhe peço: deixe-me torcer em paz!
P.S.: Hoje, às 11:00, o Brasil enfrenta a Holanda pelas quartas de final. 190 milhões de corações canarinhos estarão olhando para o mesmo objeto esférico, desejando a mesma coisa. Digam-me que não há poesia nisso? Vamos, diga-me!
Um comentário:
É, ainda não foi dessa vez que fomos hexa, mas valeu pelos jogos, por algumas atuações e, principalmente, pelo espírito esportivo apaixonado que percebíamos nitidamente em alguns jogadores e que impregnou a torcida brasileira. A menos que se ganhe, sempre temos a sensação de que poderíamos ter estado melhores. Será que poderíamos mesmo?
Não esqueçamos que somos seres limitados pela nossa inabidicável condição de seres humanos. Não somos perfeitos, não somos invencíveis, não somos a Força suprema. Deixemos isso para os super-heróis. O que somos é pessoas com alguns talentos que quando treinados podem ser aperfeiçoados e transformados em eficiência e resultados positivos. Podem se transformar - uma possibilidade, e não uma certeza. Há muitas variáveis em jogo.
Mas, como dirá o nosso amicíssimo Fernando Sabino:
"De tudo ficaram três coisas:
A certeza de que estamos começando,
A certeza de que é preciso continuar e
A certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminar
Fazer da interrupção um caminho novo,
Fazer da queda um passo de dança,
Do medo uma escola,
Do sonho uma ponte,
Da procura um encontro,
E assim terá valido a pena existir!"
Parabéns pelo texto e pela torcida - foi bom enquanto durou, certo?
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