6 de jul. de 2008
Ânus Domini
Não temo pelos textos. Seu caráter é divino. Permite até mesmo que nós, pequenas criaturas que porventura escrevem, possamos imaginá-los limpando o ânus de alguém que nem sequer se imagina.
Aliás, não temo por nada, só sinto-me anestesiado. Ao saber da notícia da invenção do papel higiênico literário, vem-me à mente outra iniciativa contemporânea extramente insípida: a campanha contra acidentes de trânsito empreendida pelo detran. Os dois temas têm muito em comum, conforme mostrarei.
O Detran tem espalhado pela cidade, em outdoors, fotos em que um carro, completamente deformado pela força do impacto que lhe arrancou a estética, é ladeado por fotos de pessoas em sofrimento: ora uma criança, solitária, pendurando-se ao rosto uma lágrima quase insone e com um rosto de jovem Cristo na manjedoura, ora de um casal que chora, amarga e sofridamente. Ambos (tanto as pessoas quanto o carro em questão) nos são apresentados com o seguinte texto: "só queria dizer que te amo, mas você não voltou" (ou coisa parecida). O outdoor, à primeira vista, causa impacto, claro: pelo grau exacerbado de sentimentalismo barato e desesperado. Um apelo choroso ao emocional de indivíduos que há muito esqueceram-se do que é pensar no outro.
O que me causa impacto, nesta campanha, não é a tristeza de ver o pequeno Cristo chorando seu calvário particular, ao lado do carro flagelado, e sim a perspectiva de que esta imagem em desespero tem a força de anestesiar o seu espectador de maneira inversamente igual. A exposição prolongada a emoções fortes as transformam em respirar comum. Isso significa dizer que, em um prazo não muito longo, a foto do sofredores na campanha do Detran não só perde rapidamente a força do seu impacto inicial, como entorpece as iniciativas posteriores, tornando cada vez mais difícil o apelo ao emocional em uma sociedade emocionalmente anestesiada pelo caos moral em que se encontra.
Tive oportunidade de olhar a reação das pessoas na rua ao outdoor do Detran. Interessante notar que a falta de reação a uma criança que chora é basicamente a mesma falta de reação que se dá frente ao motoqueiro que jaz morto, ao lado da moto que sangra rente à calçada.
Em um período em que os olhos não mais sentem, talvez seja até lícito esperarmos que o ânus nos dê alguma resposta. E eis aí a correspondência entre os dois pontos. Anestesiamos os sentidos às emoções, e a literatura, formadora de emoções e refinadora de sentidos, passa a ser mero veículo para venda de produtos de higiene. Entupimos nós mesmos e nossas crianças de emoções baratas, compradas a 10 reais na lanchonete multinacional da esquina e anestesiamos o mundo ao nosso redor, transformando emoção barata em veículo de conscientização e emoção refinada em veículo para venda de papel higiênico.
O mundo está perdido.
E tenho dito.
5 de jul. de 2008
Seu ânus será mais culto, já seu cérebro...
Notícia publicada na Folha online (http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u394458.shtml) e nos principais jornais televisivos, no dia 20/06/2008, tratam da mais nova invenção para a casa "moderna", o papel higiênico literário. O lindo utensílio custa a bagatela de R$4,90 e é distribuído por uma empresa espanhola para toda a Europa, Brasil e alguns países da América Latina.
Esse barato para seu ânus mostra, mais uma vez, todo o respeito que o povo tem pela literatura. Um dos maiores consumidores desse papel, conforme já dito, é o Brasil que tem a taxa de analfabetismo girando em torno de 16 milhões de Brasileiros, segundo o portal Terra (http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI110852-EI994,00.html). O grande negócio é que, nesses 16 milhões, não são contados os analfabetos funcionais — aquelas pessoas que lêem, mas não conseguem decodificar as informações. Se contarmos também essas pessoas, você podem imaginar quantos são realmente o público leitor no Brasil? É... isso mesmo... quase ninguém!!!!
O Brasil, porém, está investindo no papel higiênico literário. Fico imaginando o que pensaria Camões disso. "Meus Lusíadas estão limpando a bunda das pessoas? Rápido, coloque-o somente no banheiro feminino..." Ou, o que diria Machado de Assis; que completa cem anos de morte em 2008, é tema da FLIP desse ano e de inúmeras pesquisas para a reerência de sua produção artística? "Minha cara leitora, o destino de minha obra é o mesmo da sua obra: o lixo de seu banheiro... Triste é o homem que escreve..."
Além de ser uma falta de respeito com a própria literatura. Sabendo que a iniciativa de produção desse papel higiênico é de um grupo teatral, ele também é um risco para a sua saúde.
As obras para o seu deleite anal são impressas em imp
ressoras como as da foto ao lado. O grande problema é que as tintas utilizadas são tóxicas para determinadas partes sensíveis do corpo. Se pegarmos o manual de instruções de qualquer impressora matricial veremos: "Em caso de consumo oral das tintas, vá ao médico. Perigo, tinta tóxica."
Os brilhantes inventores do papel higiênico para deixar a merda junto à literatura, devem ter pensado: "Como não tem nada a ver com a genitália e o ânus a gente pode fazer nessa impressora mesmo... Hou you DOING?" Acredito que nem mesmo Joey, o viajante perturbado (e engraçadíssimo) ator da série Friends, teria uma idéia tão brilhante para condenar inúmeras pessoas a reações alérgicas profundas.
E tenho dito!!!!