É impressionante a época que nós vivemos, hoje, de insatisfação com as coisas... As pessoas não se satisfazem com suas carreiras, com seus empregos, com suas vidas, com suas relações.
Não vou começar a discorrer aqui mais pormenorizadamente sobre os vários motivos que acho que levem a isso, até porque creio que essa não é a hora e o local pra digressão teórica. Mas, pensando isso no caso emocional, que é o motivo mais exato de eu estar escrevendo esse texto, eu fico pensando: conheço várias pessoas que levam uma vida agitada, saem pras baladas, ficam com várias pessoas e aproveitam a vida ao máximo, mas são insatisfeitas. Queriam alguém com quem pudessem manter uma ligação mais íntima, com comunhão de sentimentos e gostos, com sentimentos mais genuínos. Não conseguem isso e ficam insatisfeitas, nessa busca que no fim leva à frustração, pelo simples fato de não se satisfazerem com o que têm e não perceberem que, em parte, a vida que levam determina as pessoas que vão encontrar. Por outro lado, vemos pessoas que têm isso, têm essa comunhão, essa identificação, e no entanto queriam viver outras coisas, nem que fosse por um momento, tudo aquilo que não viveram em detrimento da relação que têm. Descontentes com o mesmo motivo: levaram um tipo de vida que determinou parcialmente as pessoas que encontrariam, e percebem que isso não é o bastante. Queriam, pelo menos por algum tempo, o outro.
Todas elas não percebem, enfim, que, mesmo que tivessem a vida das outras, uma vida diferente (por um momento sequer), não se dariam conta de que estavam por vivê-las, porque nós só percebemos a vida levada pelos outros. E, se se dessem conta, esta vida diferente levada provavelmente seria bem menos intensa ou até mesmo diferente do que se poderia sequer imaginar. Nossa vida nunca nos é passada pela perspectiva que queremos. E, como não é a nossa perspectiva que queremos (queremos o outro, o que não está aqui), a ausência da perspectiva vai sempre criar a insatisfação. E a vida outra que ansiamos deveria ser tão melhor que a nossa, não? Essa busca é sistêmica, em parte efeito colateral mais cotidiano de vários problemas sérios da crise ocidental de cultura e consciência.
De maneira mais genérica, o ser humano é, conscientemente, um ser insatisfeito. Ele sabe disso desde que se lembrou de contar a história de Adão e suas maçãs. Isso é óbvio. Porém, uma coisa é um estado de insatisfação que leva à busca, ao descobrimento, à superação. Outra coisa, completamente diferente, é a insatisfação estéril ligada, ainda que inconscientemente e de maneira até remota, ao desejo consumista de substituição. Esta insatisfação, lastro de um laivo do consumismo capitalista (e não estou aqui fazendo apologia ou detração ao capitalismo ou à esquerda. Distancio-me dos dois) já é, pelo menos, bissecular, e se entranhou irremediavelmente na psique coletiva. Tal qual o consumismo (guardadas as devidas proporções), esta insatisfação não cria filhotes, não se renega ao construir algo que satisfaz a outros. Ela é gratuita, é o desejo vazio de si para si, como o consumismo, que não se detém no objeto consumido, mas na vontade de comprá-lo novamente, em outras formas e padrões. Tal insatisfação não chega nem a ser distante do alcance humano, pois é intransubstanciável. Não se modifica. Não converte para além de si. Ao contrário: força a pessoa que a tem a se converter, não para a própria pessoa, ou para um objetivo, mas para a vontade pura e simples. Pensando em Vontade, em Voluntas, lembro-me de Nietzsche. Ele, assim como Schopenhauer (e guardadas as inúmeras diferenças no enfoque desse termo, tanto por Schopenhauer quanto por Nietzsche) acreditava na Vontade, mas para Nietzsche a Vontade também era constituída de ação. A ação era meio, fim, estava agregada à Vontade de maneira sistêmica e inseparável. Na vontade que guia a insatisfação atual, de que falo, a ação é um meio sem fim. A vontade que a conduz leva, através da ação, a um prelúdio de sombras e afetos inenarrável porque indefinível.
Não vou entrar aqui nesse tipo de debate (pelo menos não agora), mas entendo que as pessoas têm muita dificuldade em se contentar com o que têm. Não escrevo um libelo ao conformismo, e sim um pequenino clamor pela sensatez. Substituímos a insatisfação de alma pela insatisfação do outro. Se, em tempos românticos, a insatisfação de alma era levada a fins exagerados, agora não temos nem mais alma insatisfeita (se é que algum dia a tivemos), transferimos essa porção volátil e agregada de nós para algo mais intangível: o outro que simplesmente aparece. Isso é muito sério. Se a credibilidade da nossa vontade fica suspensa, dependente da autonomia viciosa de um outro que, em última instância, é indefinível até como tal, como ficamos? À espera de um momento que nunca virá? De um beijo que nunca será perfeito? De uma felicidade que nunca será, nem mesmo em retrospectiva (Porque, em última instância, a felicidade só existe em retrospecto. Mas isso fica pra outro post)?
Um comentário:
Atualizações, senhor Boreas...
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