Gentileza gera gentileza. Quem nunca ouviu essa máxima? Particularmente sempre acreditei nela. Uma filosofia de vida. Quase um mantra espiritual (se eu tivesse um espírito, pode crer que seria esse o meu mantra).
Não me refiro ao campo metafísico, mas as pequenas nuances do dia a dia, como o “Bom dia. Obrigado.” que você da para o trocador do ônibus em troca de outro cumprimento ou de um sorriso. É extremamente interessante reparar que normalmente funciona! Tratar as pessoas bem é na maioria muitas vezes recompensador. Se não retribuem exatamente na mesma proporção, pelo menos fica um sentimento de “Poxa, foi o primeiro ‘Bom dia’ que eu recebi o dia todo”.
Lembro-me de uma seqüência de Patch Adams em que o personagem do Robin Willians (o “Pach” Adams, do título, dããã), faz um teste com as pessoas na rua. Ele cumprimenta desconhecidos e percebe que maioria deles responde. Achei isso interessante quando assisti ao filme. Claro que eu, como bom alienista que sou – dedicado a explorar os saberes da mente –, tive que testar essa teoria na prática. E sim, ela realmente é válida, mesmo em terras de desconfiança como as nossas. As pessoas normalmente respondem. O que me leva a crer que boa parte dos seres humanos está realmente disposto a ser gentil ou a apreciar um pouco de gentileza mesmo no meio da tumultuada vida dos grandes centros.
Escrevo isso para falar justamente dessas exceções. Nem sempre gentileza gera gentileza. Algumas pessoas precisam ser naturalmente escrotas. Todo mundo já encontrou uma dessas figuras caricatas por ai. Aqueles que parecem chupar um limão a cada manhã. Não, não confunda os “escrotos naturais” com os “mau humorados”. São espécies diferentes. Um “mau humorado” não precisa ser necessariamente um “escroto natural”. Eu mesmo me considero um “mau humorado” – ou pelo menos um “reclamão crônico” – mas acho que estou longe de ser um “escroto natural”. Não, não estou mais perto do céu por causa disso.
Mas voltando aos “escrotos naturais” (deixemos a análise os outros subtipos humanos para outras ocasiões). É incrível como algumas pessoas precisam ser continuamente escrotas com seu entorno. Não basta não responder ao “bom dia”. Não basta criticar o que está mal feito ou simplesmente não elogiar o que está bem feito. É preciso ir além. É preciso espezinhar. Arranhar. Humilhar. Para esse tipo de pessoa nada nunca está bom o suficiente e quanto está merece apenas o... mais perfeito silêncio.
Não meu caro leitor. Não adianta ser gentil com esse tipo de criatura. Não adianta ser paciente. A escrotice desses indivíduos transcende qualquer atitude apaziguadora. Normalmente nos deixa sem reação.
Observem que não estou falando de bondade ou maldade aqui. Acredito que existam bons escrotos, embora eu nunca tenha encontrado um. O fato é que a escrotice independe da simples dualidade bem/mal. Vou invocar agora o que há de mais escroto em cada um para embasar minha teoria.
Quem nunca teve a necessidade de ser escroto? Pode ser com aquele cara que é escroto também, pode ser com aquele cara que é mala ou com a ex-namorada que lhe pos um par de chifres. Às vezes você pode ser mau educado. Pode ser ignorante. Pode literalmente ignorar também. Mas quem nunca foi simplesmente escroto? Ser escroto nesse sentido é simplesmente ir além do limite da contra-medida. Você quer causar o mau. Você quer uma humilhação. Você clama um desejo primordial por sangue!
Nesses momentos você é escroto. Ninguém está imune a isso. E cuidado! Ser escroto vicia. Uma vez que você prova o sangue pode pegar gosto pela coisa. Existe uma certa sedução na desgraça alheia. Um certo prazer doentio – que faz a adrenalina subir quando vemos aqueles vídeos incríveis na TV que nada mais são, com licença da palavra, que gente se fudendo cosmicamente – em ver ou provocar a derrocada ou a humilhação de alguém. Normalmente limitamos isso o máximo possível. Ocultamos esse traço instintivo de nossa competitividade humana. Mas quando a auto-preservação está em jogo esse potencial destrutivo aflora. Reparem em seus gatos e cachorros (ou então apenas assistam mais o Animal Planet): se observarmos alguns animais sociais vemos comportamentos parecidos.
Minha conclusão desses pensamentos é que ser escroto é humano demasiado humano. Mas pessoas escrotas são um pé no saco. E gentileza gera gentileza sim! Aquela história de “amar uns aos outros como eu vos amei” é boa. Confiem nisso. Até é claro... Que vocês encontrem um “escroto natural”... Então meu caro leitor, é sua vez de mostrar os dentes.
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