É muito interessante que num país que clama por "responsabilidade ambiental"; "responsabilidade ética"; "responsabilidade política"; "responsabilidade cívica", etc, etc, etc, todos estes clamores sejam diametralmente opostos ao comportamento prático. Sabemos que o cinismo esquizo da população chegou ao extremo quando vemos frases de evocação como "seja gentil", "gentileza gera gentileza" (numa evocação ao profeta doidinho que adorava dar flores com sorrisos ali, no centro do RJ, pertinho da rodoviária), "se beber não dirija", entre outras, inscritas em cada esquina. É o cúmulo do absurdo que algumas iniciativas - públicas ou não - sintam-se na necessidade de expressar em palavras garrafais o que deveria ser senso comum rasteiro de cada indivíduo.
Mas é sob esse manto que vivemos. Uma vida absorta em pouco pensamento de si e repleta de novos mesmos que anestesiam. O pouco pensamento de si traz, a reboque, o pouco critério, o que gera a pouca coerência em atos e atitudes.
Não gosto de BBB, não suporto BBBs e, ao contrário do Jesse, já foi a época em que passei tempo vendo isso. Mas uma coisa é emblemática: quando o ganhador é um individuo cuja simples tática, ao longo do jogo, é a de tentar ser minimamente coerente e apontar as incoerências gritantes da quase unanimidade restante, percebe-se que algo vai de mal no reino da Dinamarca.
Quando um programa de TV, que reflete os gostos, expectativas e vontades de uma massa populacional tradicionalmente menos culta, começa a partir do pressuposto de que o caminho da vitória é o caminho da coerência, isso me parece ser um alerta vermelho, laranja, amarelo (e todas as demais cores do arco-iris) de que a incoerência em atitudes e gestos grassa tão soltamente, tão levianamente, que a necessidade de sua existência só não passa a ser realmente desejada em situações máximas de pobreza e miséria - e aí, venhamos e convenhamos, quando alguém está sob estas condições, não pode ter sequer consciência de si já que a luta pela sobrevivência é argumento mais que contundente e abona quase qualquer falha.
Ora, notar que um povo, em sua quase totalidade, clama por coerência em gestos e atitudes é alarmante, pois se falta coerência ao indivíduo, o que mais pode-lhe restar? A coerência está na base de qualquer discurso; um discurso incoerente é mero aspergir nonsense de palavras. E coerência não é dom, não é habilidade inata (aliás, quase nada o é, no campo discursivo), é habilidade que se cria com a educação e se põe em prática com o uso. Se há incoerência generalizada, acreditamos que haja uma deficiência generalizada no modo como a população é educada. Não pretendo invadir mais esta seara, até porque não me é familiar, mas se continuarmos nesse ritmo, em breve teremos uma população de pessoas que não precisarão de bebida ou qualquer outro tipo de droga para esquecerem-se de sua coerência.
Da mesma maneira, responsabilidade é, acima de tudo, uma questão de coerência. Não podemos tomar algo para nós, ou assumir encargos sobre certas coisas, se não nos dedicarmos a velar por aquilo constantemente. Por outro lado, somente sendo incoerentes, poderemos nos responsabilizar por algo e nos "esquecermos" de tal responsabilidade em um ou outro momento, pois a Irresponsabilidade, assim como sua mãe, a Incoerência, fica muito feliz quando encontra a fragmentariedade. A diferença é que, enquanto a Incoerência é fragmentariedade discursiva, a irresponsabilidade é fragmentariedade de ato. O ato nada mais é que um outro gesto, e gestos também podem ser discurso.
A Incoerência, assim, é uma mater geradora muito generosa. Ela nos dá a solidão compartilhada de casais que se falam sem se entenderem; nos dá condutas políticas justificadamente tortuosas; nos dá sonhos de criança em uma população de velhos; e nos dá a Irresponsabilidade.
Bom, falemos um pouco dessa filhinha da Incoerência, a Irresponsabilidade. Ela existe em duas vertentes que são interdependentes: a irresponsabilidade de si, e a irresponsabilidade no outro.
A irresponsabilidade de si pode ser tida como um problema simples de gerenciamento de tempo - o tempo para si mesmo não é cronológico, pode durar um simples segundo, mas é o segundo em que o indivíduo simplesmente põe a mão na consciência. Quem é irresponsável sobre si mesmo sequer consegue arranjar um tempinho pra sentar quieto e pensar um pouco sobre si, com detimento, tentando se analisar e apontar em si erros e acertos. Não é pra menos que os irresponsáveis de si muitas vezes são amorais: a moralidade só vem com critérios comparativos, a comparação é, essencialmente ato básico reflexivo.
Quando alguém é irresponsável de si, consequentemente será irresponsável do outro. Assumir riscos, em qualquer circunstância, é uma atitude arriscada... Requer pulso e vontade. O irresponsável tem pulso, certamente, tem vontade, mas a vontade, assim como a responsabilidade, requer constância. O Homem só é Vontade de Existir porque se afirma o tempo todo. Sendo assim, ter pulso, exercer o arbítrio e a vontade, é, essencialmente, ter uma atitude de dignidade por si mesmo.
A situação oposta nos mostra a indignidade generalizada, onde não se tem mais coerência, vontade constante e muito menos responsabilidade sobre atos e palavras. Em última instância, como nos aponta Jesse Custer em seu post, atitudes irresponsáveis se caracterizam pelo achismo, pelo julgamento precipitado, pela pouca responsabilidade nas palavras, gestos e ações. Sendo assim, não é assustador encontrar quem se responsabilize por acusações infundadas, muito menos quem as faça. Acusações infundadas e rasas são coisa comum de gente irresponsável, incoerente, e de vontade lassa. E, em último caso, são desprezíveis, pois indignas.
Assumir responsabilidades, ser coerente nos seus discursos, gestos, ações, é dignificar-se. Pois qualquer reafirmação da Vontade é digna, quando feita com consciência e orgulho do estatuto do homem, enquanto ser pensante, coerente e aspirante a si.
E tenho dito.
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